escrever

Há muito que não me estava a dedicar convenientemente ao meu gosto por vomitar algum em formato escrito. Tenho-me deixado corromper por uma profunda procrastinação no que toca ao hábito de escrever e podia aqui aliviar as minhas frustrações e debitar um número incontável de razões mas isso só serviria como exercício patético de autoflagelação e de listagem lamúrias.

Por isso prefiro estender este pequeno no sentido de tentar reencontrar o prazer que me foi roubado aos poucos que é escrever. Escrever regularmente é uma catarse que a minha mente necessita para clarificar a alma e os neurónios. Tenho sentido a falta dessa capacidade de verbalizar a consciência e inconsciência do íntimo e do anotar de pensamentos e reflexões.

A não se descreve, apenas se pode tentar mimetizar, documentando os fragmentos de falta de lucidez ou até de plenos mergulhos paranóicos com alucinações nefastas. Da mesma forma a lucidez e algo de amorfo que muitas vezes depende do ponto de vista e que o fanatismo para alguns é fervor religioso para outros, a loucura pode ser só uma excentricidade ou a demência total. Algures deve ficar o equilíbrio, o meio-termo – o fiel da balança que tento perseguir à medida que amadureço ou melhor – para falar a verdade – à medida que envelheço.

Acho que perdido o anonimato que me servia de capa para mergulhar mais facilmente no caos louco que me ocorre na mente me tenha abrandado os ânimos mais criativos. Talvez esse caos louco se tenha enternecido e seja só uma suave corrente ou talvez escrever a espaços me faça envelhecer melhor. Quem sabe?

  • Banquete na Galiza, dia em moledo, serão no Dragão. #
  • As segundas-feiras correm sempre muito mal. Já devia isso. #
  • correu 5.33 km no dia 22/3/2011 at 12:53 PM a uma velocidade de 5'37"/km
    http://go.nike.com/62et7nv #
  • Começou a tourada política, com bandarilheiros do FMI quase confirmados. Quem fará a pega de caras? Não serão forcados da Moura de certeza! #
  • Na minha mente está um zumbido permanente. Preciso de uma hora de sono… #
  • correu 5.01 km no dia 24/3/2011 at 12:54 PM a uma velocidade de 5'41"/km
    http://go.nike.com/6jpia4d #
  • #censos2011 formulário online permite que ponha a minha filha que não sabe ler ou escrever (passo anterior) como frequentando o 12º #
  • correu 10.89 km no dia 26/3/2011 at 6:32 PM a uma velocidade de 5'59"/km
    http://go.nike.com/0678s994 #
  • Aqui estamos a comprido religiosamente a hora do planeta. Jantar à luz das velas e a minha filha de lanterna. #

Faz anos que embarquei numa aventura arriscada de emprego. Tentei seguir um rumo difícil e sem garantias, como migrante na capital em busca do El dourado profissional. Tal empresa estava condicionada à por vários vícios internos uma vez que no meu intimo eu encarei a de cidade como algo probatório e nunca definitivo.

Foi no clima de teste que este diário se começou a escrever por si próprio num misto de busca por explicações para o sucedido, e por outro lado para evitar a solidão do desenraizamento a que me vetei voluntariamente – queria provar que eu era um bom profissional e que era um corajoso radical capaz de deixar tudo para trás das costas. Foi neste clima meio absorto que eu cometi um erro de crucial – um erro que me deu muitos dissabores, mas que foi uma importante lição de vida: eu errei porque estava a seguir um rumo em que tinha algo a provar aos outros e não a mim próprio.

Foi assim que eu embarquei num barco sem rumo definido, com todas os problemas que ocorrem quando se sem destino. Por isso rapidamente todo o processo se tornou um sacrifício que relutantemente tive que aguentar ainda mais cinco meses. Foi cansativo. Mas aprendi uma lição muito valida – só temos coisas a provar a nós próprios.

Subitamente apeteceu-me escrever. Escrever como se nenhum momento de intervalo estivesse intercalado entre este momento e o anterior, como se todo o conteúdo que se passou entre o ponto A e o Ponto B estivesse suspenso.

Por isso escrevo. Porque este ponto B é um ponto sem antecedentes de dormência o relaxamento. É apenas o ponto B, onde o ponto A não faz sentido nem na distância, nem na origem. Por vezes temos que ser condescendentes com o nosso para que tenhamos um presente sem pressões. E de súbito sem pretensões apeteceu-me acrescentar mais um capítulo a esta espécie de diário, só para me lembrar que existe um ponto C.

Não sei o que me dá na gana, para passar tempos esquecidos sem atender às necessidades de escrita salutar. Talvez as excelentes leituras em que tenho mergulhado me tenham inibido de escrever dado o virtuosismo literário que me tem acompanhado em inúmeros serões e tardes de lazer de deleite.

A desenfreada apanha-me de tempos a tempos, quando me vêm parar às mãos alguns grandes mestres e raramente tive um período tão profícuo. De Henry Miller a Garcia Marquês, passando por Amado e Albert Camus.

Perante páginas tão brilhantes e audases, e também pela abrangência de estilos e tipos de narração fico suspenso no deglutir de tamanha genialidade. E bom mergular em semelhantes leituras e ouvir o discuso dos bardos.

Escreve-se quando a alma se apoquenta, mas também quando a mente desperta. No meu ponto de vista, só quando a nada nos diz ou muito nos cansa, e que não temos nada para dizer ou escrever.

Contido nem sempre fui capaz de colocar no papel os últimos pensamentos voláteis ou emoções, porém o desejo de me libertar dos meu próprio sentimento de me exprimir, faz-me voar num ensejo por vezes delirante. Quando a barragem transborda é mais , e quando a privacidade se mantém as frases acumulam-se prontas a sair, a criar uma quadro a pinceladas toscas e de cores vibrantes. Como um meliante que nos sussurros se exprime e diz o que quer dizer e também o que não quer dizer, é assim que gosto de escrever. Desinibido e como gostaria que fosse.

Porém quando a censura auto-imposta se agudiza é fácil esquecer o que se deseja escrever. Tal sucede pois a vida nem sempre é um mar de privacidade e sim uma de partilha e de convivência e conciliar a partilha e a intimidade com o é um contra-senso e uma asneira pela qual já tive que pagar a punição variadíssimas vezes.

Mas hoje o castigo não me parece ser mais doloroso que a mordaça.