escrever

Há dez anos atrás a inteligência artificial era algo ainda do campo da ficção científica. Hoje porém a IA já faz deepfakes com dois cliques do rato.

É então estamos pensar que provavelmente metade dos conteúdos introduzidos diariamente na internet são produzidos com uma mínima intervenção humana. O ChatGPT por exemplo na sua actual versão gratuita é capaz de mimetizar textos complexos como se tratassem de autores famosos graças a um par de frases curtas de comando. Assim estás linhas que agora escrevo seriam quase impossíveis de distinguir entre o que eu teclo ou o que um programa estatístico é capaz de debitar.

Estamos numa época de mudança. Atualmente a inteligência artificial está já desenvolvida o suficientemente para apresentar textos que dificilmente se distinguem dos textos escritos por um humano. E isso com o acesso a essas ferramentas de escrita de uma forma simples, acessível e já massificada através de serviços como o ChatGPT ou o Bard. 

Assusta-me por isso que talvez num futuro próximo a criatividade da escrita humana se possa reduzir a uma mera série de comandos de meia dúzia de palavras que serão o suficiente em teoria para reescrever uns novos Lusíadas em 15 segundos.  Será que o leitor notará qualquer diferença sobre a alma do autor? Talvez não. Porém creio que o perigo está na normalização da temática. No fundo neste momento a inteligência artificial se resume a compilar enormes quantidades de textos e estimar qual o texto mais apropriado para responder.

É preciso compreender que inteligências artificiais não estão de facto a criar. Quando muito estão a remixar temas e conceitos e não a buscar nada de novo. Estão a compilar os resultados de uma pesquisa, recorrendo a uma colossal memória de sequencias de palavras e apresentando-as de uma forma que o algoritmo estipulou.

Por isso não há nada de novo no horizonte. Há tão só uma poluição absurda, um débito obsceno de textos publicados, ou talvez melhor dizendo, vomitados na Internet por esses robots. Vi numa notícia que se estimava, se a memória não me engana que 90% dos textos publicados online no corrente ano não foram digitados ou ditados num computador, mas sim fabricados por intermédio de um destes robots.

Nada existira de sentimento nesta escrita, a poesia será por o derradeiro um fingimento literal baseado no nada e tão só de sequências estatísticas e probabilidades.  A alma da prosa inverosímil deixa de existir, passando a haver textos plastificados, uma espécie de literatura junk texts. Vamos provavelmente viver numa globalização artificial do pensamento, em que o algoritmo utilizado nas IA trouxe para a mediania toda a leitura e pensamento.  E eu qual dinossauro excelentíssimo, escrevendo palavras ao vento como um D. Quixote.

A vida está repleta por altos e baixos, de momentos de excitação ou apatia, de alegria ou tristeza e também por saúde ou doença. Na verdade, essa montanha russa que chamamos viver é uma inconstante viagem de boas e más emoções que se vão sucedendo. E tudo sem que consigamos compreender a normalidade desta inconstância.

Quando adoecemos ou envelhecemos ou a quando as vidas profissionais ou amorosas se desmoronam julgamos que isso tem algo de anormal. Mas muito pelo contrário, nada de existe de mais normal.

E é nestes baixos da vida, em que parece que nos foge o chão que pisamos que podemos realmente vencer. É aí que surge a oportunidade de ter alguma sabedoria e refletir sobre o que realmente importa na vida e como é normal ganhar ou também perder.

Podemos sentir-nos perdidos e desanimados, mas é imperioso lembrar que sempre há luz no fim do túnel (seja ele qual for). A luz pode sempre surgir na mais profunda escuridão, estar ao virar da esquina da dor e do desespero.

À medida que os anos e décadas passam, temos que lembrar que esta vida é bela e cheia de surpresas. Que por muito negro que esteja o céu haverá sempre um silver lining. Não importa o quão sombrio possa parecer o momento atual nunca devemos perder a no futuro. Há luz depois.

Então, encontremos a luminosidade em nossas vidas e compartilhemos essa luz com os outros. Afinal, a verdadeira felicidade está em dar amor e esperança para aqueles que nos rodeiam, sem pedir nada em troca. A verdadeira felicidade é dar e não ter. É a gratidão. É a partilha.

Não devemos desistir de encontrar essa claridade na nossa vida. Através de relacionamentos saudáveis e de experiências enriquecedoras há a verdadeira luz. E momentos de gratidão. Afinal, a vida é uma jornada, e a “luminosidade” está sempre ao nosso alcance.

Não creio que as festas de homenagem sejam necessárias. Contudo enquanto ouço um instrumental jazz entre calado com uma peça musical de música eletrónica a bombar, questiono-me se é ainda prazeroso escrever aqui. A resposta é – Sim! e volto a ter muita necessidade de escrever e deitar cá para fora os meus pensamentos.

É uma forma sadia de lidar com as contingências da vida e também de exercer a minha singela vontade de comentar e fazer considerações acerca da realidade.

Apesar de estar ausente nos tempos mais recentes, tenho como desculpa estar envolvido numa série de batalhas da vida que são bem mais importantes e consumidoras da capacidade de opinar.   Também e justamente porque me acho a fazer uma caminhada mais espiritual, tenho conseguido combater o meu Ego e feito com que episódios mais exuberantes do Ego tenham desaparecido.

A meditação tem me fornecido o caminho mais espiritual e roubado as cenas mais tempestuosas da minha existência.  Mesmo assim, terei que reeditar a promessa de voltar aqui mais vezes. Para meu bem, parabéns caro Psicótico.

Apercebi-me com alguma comoção que o terceiro calhau a contar do Sol completou 20 orbitas em redor do mesmo desde que comecei a escrever aqui . Vinte anos é um número redondo, talvez redondo demais para se deixar passar em branco.

Estava eu na grande cidade e recordo-me como alimentava desencantos, desejos e aspirações a milhares de eventos que nunca que se cumpririam e tive a necessidade de ter um elo que me ligasse aos meus amigos e colegas na minha cidade. Existia a necessidade egocêntrica de afirmar que eu ainda existo, de partilha de vivências e até algum exibicionismo. E foi nesse registo que embarquei na escrita do Diário de um meliante.

Confesso que batismo deste blog/díario não foi muito feliz, em primeiro lugar porque eu nunca padeci de psicoses e em segundo lugar porque de meliante tinha muito pouco. No enredo da época, onde a internet era um campo de anonimato e se vivia a liberdade digital que o 11 de Setembro desse ano veio por fim, talvez apimentar o titulo do blog me desse o distanciamento para aliviar algum pudor ou timidez na linguagem e pelo menos isso foi conseguido.

Vinte anos passados recordo com nostalgia aquela data, mesmo que fosse um período da minha vida, carregado de emoções fortes e desencantamentos de um jovem adulto. À luz do que sei hoje posso afirmar que todo aquele histerismo fazia parte dos conturbados anos que se seguiriam. Por isso me confesso: muitas das razões que me compeliram para escrever o Psicótico resultavam de uma enorme tempestade interna e incapacidade para gerir o que eu desejava e o que estava disposto a abdicar para obter o que queria, quer na carreira, quer ma vida amorosa. E não foi fácil, manter como um bom malabarista todas as bolas no ar, tentando manter todas as encruzilhadas do destino em aberto sem me comprometer com uma direção definitiva que só existia na minha mente histérica. Claro que as bolas acabariam por cair uma por uma mas felizmente mantive a minha sanidade a custo de algumas tristezas e desilusões.

Volvidos vinte anos encontro a satisfação de ter tido a sorte de ter atingido um dos principais trofeus a que me tinha proposto: a mulher pela qual eu era secretamente apaixonado e que eu desesperadamente tentava chamar a atenção (inclusivemente escrevendo aqui) está agora casada comigo. Talvez não haja maior vitória sobre o destino que o facto de ter deambulado e batido com a cabeça nas paredes, a minha vida amorosa é recompensada com uma medalha de ouro. A família que constituí é o meu mais precioso tesouro que tinha desejado há exatamente 20 anos e presumo que poucos podem afirmar o mesmo.

Mesmo que algumas personagens, apenas referidas pelas suas iniciais tenham sumido da minha lista de contactos, apraz-me dizer que a esmagadora maioria faz parte do meu cotidiano. Algumas estão perto do meu coração, espalhadas pelo mundo mas dando sempre o pulsar da amizade que só se vai desvanecer na campa. A vida me é assim suave, felizmente.

Mesmo que a minha vida profissional não seja um mar de rosas, e que não esteja nem perto do que tinha imaginado há vinte anos, não me posso queixar muito. Mesmo que eu tenha envelhecido há ainda alguns bons resquícios de juventude e a maturidade não tem estragado em demasia o meu espirito sonhador. Ao fim ao cabo tudo é transiente e estou feliz e em paz.

Parabéns Psicótico.


Não sei se estão a ver aqueles dias em que não
acontece nada, a não ser o que o que aconteceu e não aconteceu
E do nada há uma luz que se acende.
Não se sabe se vem de fora ou se de dentro, apareceu
E dentro da porção da tua vida, é a ti
que cabe o não trocar nenhum futuro pelo presente
O fazer face à face que se teve até ali
Ausente presente
Vê lá o que fazes, há
tanto a fazer
Fazes que fazes
Ou pões sementes a crescer?
Precisas de água, a
Terra também
Ventos cruzados
E o sol e a chuva que os detém
Vivida a planta
Refeita a casa
É espaço em branco
Tempo de o escrever
E abrir asa
E a linha funda, na
palma da mão
Desenha o tempo então
Mas há linhas de água que cruzas sem sequer notares, e
oh, estás no deserto e talvez no oásis, se o olhares
E não há mal e não há bem que não te venha incomodar
Vale esse valor? É para vender ou comprar?
Mas hoje, questões éticas? Agora? Por favor…
Que te iam prescrever a tal receita para a dor
Vais ter que reciclar o muito frio e o muito quente
Ausente presente
Vê lá o que fazes, há
tanto a fazer
Fazes que fazes
Ou pões sementes a crescer?
E a linha funda, na
palma da mão
Desenha o tempo então
‘Um curto espaço de tempo’
Vais preenchê-lo com o frio da morte morrida
Ou o calor da vida vivida?
Não queiras ser nem um exemplo, nem um mau exemplo, por si só
Há dias em que é grão da mesma mó
E a senha já tirada, já tardia do doente
Dez lugares atrás, e pouco a pouco, à frente
E cada um falar-te das histórias da sua vida
Feliz, dorida
Vê lá o que fazes, há
tanto a fazer
Fazes que fazes
Ou pões sementes a crescer?
Precisas de água, a
Terra também
Ventos cruzados
E o sol e a chuva que os detém
Vivida a planta
Refeita a casa
É espaço em branco
Tempo de o escrever
E abrir asa
E a linha funda, na
palma da mão
Desenha o tempo então
E explicaram-te em botânica, uma espécie que não muda
a flor do fatalismo, está feito
E se até dá jeito alterar só por hoje o amanhã
Melhor é transfigurar
o amanhã com todo o hoje
E as palavras tornam-se esparsas
Assumes
Fazes que disfarças
Escolhes paixões, ciúmes
Tragédias e farsas
E faças o que faças
Por vales e cumes
Encontras-te a sós, só
Grão a grão acompanhado e só
Grão da mesma mó
Grão da mesma mó

Compositores: Sergio de Barros Godinho / David Fonseca

Enquanto me dirigia a pé para o meu emprego pude observar um daqueles momentos insólitos que me despoletou uma serie de pensamentos menos próprios para um início da manhã.

Enquanto um carro de lixo se afastava, vi um balão cor-de-rosa que esvoaçou do seu interior e levado pelo vento começou a saltitar pela rua, como se tivesse vida própria, escapando do mundo dos resíduos. Pinchou levado pelo vento rua acima, passo ante passo e dei por mim a pensar na fuga do balão, uma espécie de metáfora doentia da nossa realidade – como num poema-realidade em que o que é belo é levado pelos lixeiros neste mundo consumista e cheio de desperdícios.

O balão cor-de-rosa pôs-me a pensar acerca da realidade e de como ela é caótica e estranha. Aquele brinquedo jogado no lixo estava ali a esvoaçar como se o vento lhe soprasse vida e viajava para longe fugindo ao seu destino num centro de reciclagem. Uma simples rabanada de vento o fizera escapulir-se e passar a ser mais umas gramas de material tóxico no meio ambiente em vez de estar acondicionado ou reciclado em um novo objecto. O caos interviera e sem saber esse objecto inanimado, alegrava a minha manhã com uma imagem poética que me tinha despertado a curiosidade e também a vontade de escrever.

Aquele balão cor-de-rosa têm para mim um significado intenso, relembrou-me de algo que a minha mente me tem alertado continuamente neste últimos anos, de que devemos estar atentos ao que nos rodeia. Nas nossas rotinas, esquecemo-nos de estar despertos para o que nos rodeia. Vivemos sem ver e vemos sem observar. E quando vivemos embrulhados nos nossos pensamentos apressados, na nossa agenda de afazeres diários por fazer que nos esquecemos de pensar e apreciar a beleza do momento. Agradeço-te balão cor-de-rosa e também te agradeço vento, por me lembrarem que é preciso estar atento, que é preciso viver para lá da nossa azáfama diária.

Que vergonha passar tanto tempo sem escrever aqui. Devo estar a amadurecer em demasia. Prefiro dizer que ao invés de envelhecer estou a amadurecer talvez porque os anos passaram sem que me desse conta e de repente estão ali ao virar da esquina os cinquenta. A pouco e pouco as brancas no cabelo vão sendo mais frequentes, porém a minha mentalidade parece mais juvenil e optimista. Isto porque muito provavelmente os anos que vivi me mostraram que o pessimismo é um obstáculo a uma vida feliz.

Fiquei recentemente familiarizado com uma das premissas do estoicismo denominada “Amor Fati“ que se traduziria em grosso modo como amar o destino. É um conceito difícil de abraçar, pois implicitamente deveríamos não só aceitar e amar tudo o que nos acontece de bom e também de mau. No fundo sermos gratos por tudo o que o destino nos reservou, mesmo que isso nos tivesse num primeiro momento causado angustia e sofrimento. E isto porque é uma das formulas que os estóicos acreditam ser a base de uma vida feliz. Aceitar que o nosso ego e vontade não altera magicamente o nosso destino mas sim só o nega e cria obstáculos. Acreditar que o que sucedeu de mau na nossa existência só nos tornou mais capazes e nos fez crescer é uma noção que venho a acarinhar cada vez mais a medida que amadureço.

Todos nós, homo sapiens somos os descendentes de lutadores estóicos que suportaram todas as adversidades que se colocaram à sua frente, desde o tempo das cavernas, passando por mil fomes, guerras e pestes desde que há memória. Ao fim de contas nós neste jardim à beira-mar plantado desde os nossos bisavós sobrevivemos à implantação da republica, à primeira grande guerra, a três ou quatro bancas-rotas, à falta de alimentos, a uma ditadura de 48 anos, a uma guerra colonial com 5 frentes no ultramar, ao isolamento internacional, a pobreza do pós-guerra, à revolução de Abril e ao PREC, ao 25 de Novembro, às maiorias absolutas, ao FMI e a geringonça.

No fim fazem-se as contas: sobrevivemos e somos mais fortes e capazes. Tal como na nossa própria vida, todas as vicissitudes são importantes para nos enriquecerem e fazerem de nós seres com mais fibra e sabedoria. E a cada ano que passa e nos afastamos daquelas comoções e contrariedades trágicas temos uma perspectiva mais salutar, uma lição que levamos aprendida para uso futuro. “Amor Fati” é abraçar o fado e sentir que nos fez quem somos e que deveríamos ser gratos pelo caminho que fizemos assim como o que se está a desenlaçar para o futuro que há de vir. E que venha ele. Estamos cá para isso.

As pequenas células cinzentas necessitam exercício. Esta seria talvez uma das frases mais repetidas de uma das minhas personagens de ficção favoritas le monsieur Hercule Poirot, famoso detective privado, um belga vivendo na Londres imperial das novelas da escritora Agatha Christie. Em adolescente eu devora livros de suspense e mistério e a mestria daquela escritora deixa-me em suspenso até ao desvendar do mistério. O estranho e perspicaz belga, orgulhava-se de exercitar as pequenas células cinzentas e meticulosamente deduzir quem era o frio assassino.

Recordo-me ainda de alguns desse livros, muito embora na altura todos aqueles nomes da aristocracia britânica e toda aquela estética do anos trinta me confundisse um pouco. Mas o que mais me fascina hoje é que aquela autora, teve ao longo de cerca de quarenta anos de carreira a mestria e a capacidade de labuta para escrever mais de 80 obras policiais. Trata-se tão somente da autora mais lida em todo o mundo e os seus livros só serão ultrapassados em número de vendas pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare. Qual seria o seu segredo? Como teriam as suas pequenas células cinzentas tanta capacidade criativa e tanto empenho em escrever? Como seria capaz de tanta fecundidade de escrita e tanto arrojo nas suas histórias envolventes?

Fico surpreendido como alguém é capaz de suster anos fio a originalidade e a solidez de um estilo de escrita , conseguindo todos os anos meter um livro ou dois no prelo e elaborar uma obra literária tão profícua como a lady Agatha Christie. Aquelas pequenas células cinzentas deviam ser muito especiais. E deviam suar muito.

Este é um simples exercício para perceber quanto consigo escrever num espaço cronometrado de quatro minutos. Enquanto o tique-taque conta, martelo teclas contra-relógio sem muita precisão do que pretendo escrever. Mas isso não é propriamente algo de errado, é apenas um desenvolver de aptidões que necessito se pretendo algum dia levar avante o meu propósito de escrever alguns contos, e quem sabe, mais tarde conseguir a grande realização pessoal que seria escrever um romance.
Esse objetivo pode até ser algo inconcretizável, mas creio que sem ser um obreiro diligente, um escrevinhador persistente, não serei capaz de tal proeza. Por isso dou os meus primeiros passos no sentido de atingir uma escrita mais fluída, capacitando-me que só com muito suor e esforço se atingem as grandes façanhas da vida. Pé ante pé
Uma mulher não se conquista apenas através de um estalar de dedos, ela requer mimos e atenção, um fazer da corte perseverante, mostrando intenções sérias de namoro numa aproximação faseada rumo à intimidade que é o amor. Tal como nas paixões a escrita rouba-nos parte do nosso precioso tempo nesta terra, e só com a força do coração podemos tentar seguir a mestria com que as palavras se derramam num texto. Escrever é um ato de amor puro onde o escritor se desnuda, se retira de uma zona de conforto e expõe os seus pensamentos e fantasias numa estória que revela fragmentos do seu ser intimo e da sua matriz de credos e de estética. Cada palavra é um nó de um intrincado manto de retalhos do que o autor se propõe a dar ao seu leitor, para que este último se deixe cobrir nos sonhos de outrem. E isso é a mais pura das belezas, transferir sentimentos, sensações e até pedaços da nossa alma para alguém perdido no espaço e no tempo que algum dia há de ler aquele conjunto de palavras que jorrou no seu espírito.

Muita tinta se tem desperdiçado na última semana acerca do acordo ortográfico da língua portuguesa firmado nos idos anos 90. Aparentemente deveria entrar em vigência depois de um período de seis anos em que a ortografia pré e pós acordo poderiam coexistir. A ideia de buscar a unidade da língua portuguesa e a sua defesa e promoção internacional foi implementada sem um acordo consistente entre os países denominados PALOP´s e aparentemente agora só os portugueses é que tem que escrever na sua forma moderna.

O problema é que certos paladinos da essência e pureza da língua, seja lá isso o que for advogam que o acordo é negativo e que as mudanças são problemáticas. Honestamente, a meu ver – na minha humilde opinião – eu que trato tão miseravelmente a língua de Camões – nem sempre as mudanças são para melhor e também sinto certas dificuldades em escrever o tal português moderno. Porém defender a imutabilidade de uma língua seja porque argumentos for não faz muito sentido: não me parece que alguém esteja disposto a continuar a escrever pharmacia pois não?

Muitas vozes se têm insurgido e recusado a escrever legalmente os textos usando teimosamente uma ortografia desatualizada, mas que afinal não é assim tão diferente… as palavras não perdem o seu significado e só umas poucas têm uma roupagem ligeiramente diferente. E provavelmente em 99,99% dos textos é impossível descortinar se está escrito segundo as novas normas ou não.

Toda esta semi-polémica de certos antros intelectuais e alguns jornais mais ascetas do Português leva-me a questionar o porque deste virtuosismo. Uma larga percentagem dos falantes de português são incapazes de escrever duas frases simples sem darem erros ortográficos graves e com a adoção (e não adopção) de dicionários e manuais nas escolas segundo o novo acordo será só uma questão de tempo para que se desvaneçam todos estes preciosismos histéricos. Ao final do dia o corretor ortográfico do processador de texto é que sabe…

Aos sessenta e seis anos, o escritor Haruki Murakami é uma referência para mim. Ele começou a escrever e a correr nas suas
trinta e tais primaveras e tem atualmente a sua obra traduzida em 55 línguas e já correu uma ultra maratona. O seu método é relativamente simples: foco e resistência com uma pitada de talento.

A sua genialidade não é unicamente baseada no talento de contador de histórias como só um amante do jazz consegue ter – é também alicerçada num empenho invejável. Levantar-se todos os dias às quatro da madrugada para escrever até ao meio dia e sinal de um compromisso que requer muita determinação. Por sinal essa determinação Murakami admite que foi buscar a sua relação com a corrida: a superação e saber os seus limites e objetivos anda de mãos dadas com o prazer e a liberdade – a corrida e a escrita são artes que requerem todo o esforço de concentração e a força mental para perseguir uma meta.

Este belo exemplo nipónico da nova literatura, um posso sem fundo de criatividade deve ser um modelo a seguir, se bem que a ideia de despertar bem cedo me pareça algo assustadora…

Muitas vezes o silêncio é sinal de reflexão e não de alheamento. Não tenho escrito aqui no meu blogue há já algum tempo, mas isso não é sinonimo que estou sem histórias para contar. Apenas pausei de escrevinhar banalidades.

Felizmente sei que atualmente ninguém lê blogues anónimos e isso acaba por ser uma vantagem por saber que estou num exercício mais liberto de criticas e que posso explorar sem amarras de audiências o gosto de escrever. Esse gosto não se perde, fica cravado no intimo, mas fica entorpecido por falta de hábito. Escrever deveria ser um exercício diário que se torna mais fluído com a perseverança e empenho e que só trás benefícios para a alma e para o próprio cérebro.

Foi ao ler um artigo cientifico que ao escrever está-se também a meditar, e que os resultados fisiológicos são equiparados vou deixar-me a mim mesmo o repto de escrever o mais regularmente possível, em direção a uma mente mais sábia e a um espírito mais saudável.

 

Durante os longo períodos que não escrevo aqui sinto que muito fica por dizer. E o que me custa mais é à medida que os iatos de tempo crescem, mais custoso é voltar a escrever algo que eu julgue digno de ser aqui colocado. É um ciclo vicioso que preciso quebrar, ainda mais que a escrita, por muito pequena que seja é um processo catártico e que estimula a massa cinzenta para que esta não atrofie.

Ganhando coragem e empenho, assim como na forma como corro e nado quero fazer destes três prismas dos meus hobbies, um conjunto de bons hábitos para uma mente sana e para que eu me mantenha capaz de manter criativo e no fundo vivo.

Posso até perdido muita da dinâmica e da pujança criativa e intelectual da juventude, que a bem da verdade desperdicei em teias e desvarios, mas quero na minha maturidade desenvolver ao máximo o que ainda me resta de músculos e capacidade dos miolos.

Impossível é nada, e esse deve ser o meu moto, cair e levantar, perder e voltar a jogar. Ao fim de contas não se pode perder sempre não é?

Se pensasse duas vezes não seria capaz de encontrar uma encruzilhada, um ponto geracional no passado para o ponto que me encontro actualmente. Seriam muitos pontos, muitas decisões ou principalmente a sua ausência que foram construindo um futuro que é hoje um presente.

Mil e um caminhos afluem a este destino em que eu me posicionei. Sei que as cartas do Tarot, que eu tanto subestimo, tantas e repetidas vezes me disseram um destes presentes. Nem sempre queremos ver, ou não focamos o que um dos futuro nos destina porque viver não está escrito. Escreve-se.

O Destino escreve-se a cada esquina, a cada sorriso, a cada viagem. A cada palavra por dizer e a cada não. Espero continuar a escrever.

Há muito tempo que não me estava a dedicar convenientemente ao meu gosto por vomitar algum pensamento em formato escrito. Tenho-me deixado corromper por uma profunda procrastinação no que toca ao hábito de escrever e podia aqui aliviar as minhas frustrações e debitar um número incontável de razões mas isso só serviria como exercício patético de autoflagelação e de listagem lamúrias.

Por isso prefiro estender este pequeno texto no sentido de tentar reencontrar o profundo prazer que me foi roubado aos poucos que é escrever. Escrever regularmente é uma catarse que a minha mente necessita para clarificar a alma e os neurónios. Tenho sentido a falta dessa capacidade de verbalizar a consciência e inconsciência do íntimo e do anotar de pensamentos e reflexões.

A loucura não se descreve, apenas se pode tentar mimetizar, documentando os fragmentos de falta de lucidez ou até de plenos mergulhos paranóicos com alucinações nefastas. Da mesma forma a lucidez e algo de amorfo que muitas vezes depende do ponto de vista e que o fanatismo para alguns é fervor religioso para outros, a loucura pode ser só uma excentricidade ou a demência total. Algures deve ficar o equilíbrio, o meio-termo – o fiel da balança que tento perseguir à medida que amadureço ou melhor – para falar a verdade – à medida que envelheço.

Acho que perdido o anonimato que me servia de capa para mergulhar mais facilmente no caos louco que me ocorre na mente me tenha abrandado os ânimos mais criativos. Talvez esse caos louco se tenha enternecido e seja só uma suave corrente ou talvez escrever a espaços me faça envelhecer melhor. Quem sabe?

  • Banquete na Galiza, dia em moledo, serão no Dragão. #
  • As segundas-feiras correm sempre muito mal. Já devia saber isso. #
  • correu 5.33 km no dia 22/3/2011 at 12:53 PM a uma velocidade de 5'37"/km
    http://go.nike.com/62et7nv #
  • Começou a tourada política, com bandarilheiros do FMI quase confirmados. Quem fará a pega de caras? Não serão forcados da Moura de certeza! #
  • Na minha mente está um zumbido permanente. Preciso de uma hora de sono… #
  • correu 5.01 km no dia 24/3/2011 at 12:54 PM a uma velocidade de 5'41"/km
    http://go.nike.com/6jpia4d #
  • #censos2011 formulário online permite que ponha a minha filha que não sabe ler ou escrever (passo anterior) como frequentando o 12º #
  • correu 10.89 km no dia 26/3/2011 at 6:32 PM a uma velocidade de 5'59"/km
    http://go.nike.com/0678s994 #
  • Aqui estamos a comprido religiosamente a hora do planeta. Jantar à luz das velas e a minha filha de lanterna. #

Faz anos que embarquei numa aventura arriscada de emprego. Tentei seguir um rumo difícil e sem garantias, como migrante na capital em busca do El dourado profissional. Tal empresa estava condicionada à partida por vários vícios internos uma vez que no meu intimo eu encarei a mudança de cidade como algo probatório e nunca definitivo.

Foi no clima de teste que este diário se começou a escrever por si próprio num misto de busca por explicações para o sucedido, e por outro lado para evitar a solidão do desenraizamento a que me vetei voluntariamente – queria provar que eu era um bom profissional e que era um corajoso radical capaz de deixar tudo para trás das costas. Foi neste clima meio absorto que eu cometi um erro de vida crucial – um erro que me deu muitos dissabores, mas que foi uma importante lição de vida: eu errei porque estava a seguir um rumo em que tinha algo a provar aos outros e não a mim próprio.

Foi assim que eu embarquei num barco sem rumo definido, com todas os problemas que ocorrem quando se viagem sem destino. Por isso rapidamente todo o processo se tornou um sacrifício que relutantemente tive que aguentar ainda mais cinco meses. Foi cansativo. Mas aprendi uma lição muito valida – só temos coisas a provar a nós próprios.

Subitamente apeteceu-me escrever. Escrever como se nenhum momento de intervalo estivesse intercalado entre este momento e o anterior, como se todo o conteúdo que se passou entre o ponto A e o Ponto B estivesse suspenso.

Por isso escrevo. Porque este ponto B é um ponto sem antecedentes de dormência o relaxamento. É apenas o ponto B, onde o ponto A não faz sentido nem na distância, nem na origem. Por vezes temos que ser condescendentes com o nosso passado para que tenhamos um presente sem pressões. E de súbito sem pretensões apeteceu-me acrescentar mais um capítulo a esta espécie de diário, só para me lembrar que existe um ponto C.

Não sei o que me dá na gana, para passar tempos esquecidos sem atender às necessidades de escrita salutar. Talvez as excelentes leituras em que tenho mergulhado me tenham inibido de escrever dado o virtuosismo literário que me tem acompanhado em inúmeros serões e tardes de lazer de deleite.

A leitura desenfreada apanha-me de tempos a tempos, quando me vêm parar às mãos alguns grandes mestres e raramente tive um período tão profícuo. De Henry Miller a Garcia Marquês, passando por Amado e Albert Camus.

Perante páginas tão brilhantes e audases, e também pela abrangência de estilos e tipos de narração fico suspenso no deglutir mental de tamanha genialidade. E bom mergular em semelhantes leituras e ouvir o discuso dos bardos.

Escreve-se quando a alma se apoquenta, mas também quando a mente desperta. No meu ponto de vista, só quando a vida nada nos diz ou muito nos cansa, e que não temos nada para dizer ou escrever.

Contido nem sempre fui capaz de colocar no papel os últimos pensamentos voláteis ou emoções, porém o desejo de me libertar dos meu próprio sentimento de me exprimir, faz-me voar num ensejo por vezes delirante. Quando a barragem transborda é mais simples, e quando a privacidade se mantém as frases acumulam-se prontas a sair, a criar uma quadro a pinceladas toscas e de cores vibrantes. Como um meliante que nos sussurros se exprime e diz o que quer dizer e também o que não quer dizer, é assim que gosto de escrever. Desinibido e profundo como gostaria que fosse.

Porém quando a censura auto-imposta se agudiza é fácil esquecer o que se deseja escrever. Tal sucede pois a vida nem sempre é um mar de privacidade e sim uma festa de partilha e de convivência e conciliar a partilha e a intimidade com o mundo é um contra-senso e uma asneira pela qual já tive que pagar a punição variadíssimas vezes.

Mas hoje o castigo não me parece ser mais doloroso que a mordaça.