escrever

Não creio que as festas de homenagem sejam necessárias. Contudo enquanto ouço um instrumental jazz entre calado com uma peça musical de eletrónica a bombar, questiono-me se é ainda prazeroso escrever aqui. A resposta é – Sim! e volto a ter muita necessidade de escrever e deitar cá para fora os meus pensamentos.

É uma forma sadia de lidar com as contingências da e também de exercer a minha singela vontade de comentar e fazer considerações acerca da .

Apesar de estar ausente nos tempos mais recentes, tenho como desculpa estar envolvido numa série de batalhas da vida que são bem mais importantes e consumidoras da capacidade de opinar.   Também e justamente porque me acho a fazer uma caminhada mais espiritual, tenho conseguido combater o meu Ego e feito com que episódios mais exuberantes do Ego tenham desaparecido.

A tem me fornecido o mais espiritual e roubado as cenas mais tempestuosas da minha existência.  Mesmo assim, terei que reeditar a promessa de voltar aqui mais vezes. Para meu bem, parabéns caro Psicótico.

Apercebi-me com alguma comoção que o terceiro calhau a contar do Sol completou 20 orbitas em redor do mesmo desde que comecei a escrever aqui . Vinte anos é um número redondo, talvez redondo demais para se deixar passar em branco.

Estava eu na grande cidade e recordo-me como alimentava desencantos, e aspirações a milhares de eventos que nunca que se cumpririam e tive a necessidade de ter um elo que me ligasse aos meus amigos e colegas na minha cidade. Existia a necessidade egocêntrica de afirmar que eu ainda existo, de partilha de vivências e até algum exibicionismo. E foi nesse registo que embarquei na escrita do Diário de um meliante.

Confesso que batismo deste blog/díario não foi muito , em primeiro lugar porque eu nunca padeci de psicoses e em segundo lugar porque de meliante tinha muito pouco. No enredo da época, onde a internet era um campo de anonimato e se vivia a liberdade digital que o 11 de Setembro desse ano veio por fim, talvez apimentar o titulo do blog me desse o distanciamento para aliviar algum pudor ou timidez na linguagem e pelo menos isso foi conseguido.

Vinte anos passados recordo com nostalgia aquela data, mesmo que fosse um período da minha vida, carregado de emoções fortes e desencantamentos de um jovem adulto. À luz do que sei hoje posso afirmar que todo aquele histerismo fazia parte dos conturbados anos que se seguiriam. Por isso me confesso: muitas das razões que me compeliram para escrever o Psicótico resultavam de uma enorme interna e incapacidade para gerir o que eu desejava e o que estava disposto a abdicar para obter o que queria, quer na carreira, quer ma vida amorosa. E não foi fácil, manter como um bom malabarista todas as bolas no ar, tentando manter todas as encruzilhadas do destino em aberto sem me comprometer com uma direção definitiva que só existia na minha mente histérica. Claro que as bolas acabariam por cair uma por uma mas felizmente mantive a minha sanidade a custo de algumas tristezas e desilusões.

Volvidos vinte anos encontro a satisfação de ter tido a sorte de ter atingido um dos principais trofeus a que me tinha proposto: a mulher pela qual eu era secretamente apaixonado e que eu desesperadamente tentava chamar a atenção (inclusivemente escrevendo aqui) está agora casada comigo. Talvez não haja maior vitória sobre o destino que o facto de ter deambulado e batido com a cabeça nas paredes, a minha vida amorosa é recompensada com uma medalha de ouro. A que constituí é o meu mais precioso tesouro que tinha desejado há exatamente 20 anos e presumo que poucos podem afirmar o mesmo.

Mesmo que algumas personagens, apenas referidas pelas suas iniciais tenham sumido da minha lista de contactos, apraz-me dizer que a esmagadora maioria faz parte do meu cotidiano. Algumas estão perto do meu coração, espalhadas pelo mas dando sempre o pulsar da amizade que só se vai desvanecer na campa. A vida me é assim suave, felizmente.

Mesmo que a minha vida profissional não seja um mar de rosas, e que não esteja nem perto do que tinha imaginado há vinte anos, não me posso queixar muito. Mesmo que eu tenha envelhecido há ainda alguns bons resquícios de juventude e a maturidade não tem estragado em demasia o meu espirito sonhador. Ao fim ao cabo tudo é transiente e estou feliz e em paz.

Parabéns Psicótico.


Não sei se estão a ver aqueles dias em que não
acontece nada, a não ser o que o que aconteceu e não aconteceu
E do nada há uma luz que se acende.
Não se sabe se vem de fora ou se de dentro, apareceu
E dentro da porção da tua vida, é a ti
que cabe o não trocar nenhum pelo presente
O fazer face à face que se teve até ali
Ausente presente
Vê lá o que fazes, há
tanto a fazer
Fazes que fazes
Ou pões sementes a crescer?
Precisas de água, a
Terra também
Ventos cruzados
E o sol e a chuva que os detém
Vivida a planta
Refeita a casa
É em branco
de o escrever
E abrir asa
E a linha funda, na
palma da mão
Desenha o tempo então
Mas há linhas de água que cruzas sem sequer notares, e
oh, estás no deserto e talvez no oásis, se o olhares
E não há mal e não há bem que não te venha incomodar
Vale esse valor? É para vender ou comprar?
Mas hoje, questões éticas? Agora? Por favor…
Que te iam prescrever a tal receita para a dor
Vais ter que reciclar o muito frio e o muito quente
Ausente presente
Vê lá o que fazes, há
tanto a fazer
Fazes que fazes
Ou pões sementes a crescer?
E a linha funda, na
palma da mão
Desenha o tempo então
‘Um curto espaço de tempo’
Vais preenchê-lo com o frio da morrida
Ou o calor da vida vivida?
Não queiras ser nem um exemplo, nem um mau exemplo, por si só
Há dias em que é grão da mesma mó
E a senha já tirada, já tardia do doente
Dez lugares atrás, e pouco a pouco, à frente
E cada um falar-te das histórias da sua vida
, dorida
Vê lá o que fazes, há
tanto a fazer
Fazes que fazes
Ou pões sementes a crescer?
Precisas de água, a
Terra também
Ventos cruzados
E o sol e a chuva que os detém
Vivida a planta
Refeita a casa
É espaço em branco
Tempo de o escrever
E abrir asa
E a linha funda, na
palma da mão
Desenha o tempo então
E explicaram-te em botânica, uma espécie que não muda
a flor do fatalismo, está feito
E se até dá jeito alterar só por hoje o amanhã
Melhor é transfigurar
o amanhã com todo o hoje
E as palavras tornam-se esparsas
Assumes
Fazes que disfarças
Escolhes paixões, ciúmes
Tragédias e farsas
E faças o que faças
Por vales e cumes
Encontras-te a sós, só
Grão a grão acompanhado e só
Grão da mesma mó
Grão da mesma mó

Compositores: Sergio de Barros Godinho / David Fonseca

Enquanto me dirigia a pé para o meu emprego pude observar um daqueles momentos insólitos que me despoletou uma serie de pensamentos menos próprios para um início da manhã.

Enquanto um carro de lixo se afastava, vi um balão cor-de-rosa que esvoaçou do seu interior e levado pelo começou a saltitar pela rua, como se tivesse vida própria, escapando do mundo dos resíduos. Pinchou levado pelo vento rua acima, passo ante passo e dei por mim a pensar na fuga do balão, uma espécie de metáfora doentia da nossa – como num poema-realidade em que o que é belo é levado pelos lixeiros neste mundo consumista e cheio de desperdícios.

O balão cor-de-rosa pôs-me a pensar acerca da realidade e de como ela é caótica e estranha. Aquele brinquedo jogado no lixo estava ali a esvoaçar como se o vento lhe soprasse vida e viajava para longe fugindo ao seu destino num centro de reciclagem. Uma simples rabanada de vento o fizera escapulir-se e passar a ser mais umas gramas de material tóxico no meio ambiente em vez de estar acondicionado ou reciclado em um novo objecto. O caos interviera e sem esse objecto inanimado, alegrava a minha manhã com uma imagem poética que me tinha despertado a curiosidade e também a de escrever.

Aquele balão cor-de-rosa têm para mim um significado intenso, relembrou-me de algo que a minha mente me tem alertado continuamente neste últimos anos, de que devemos estar atentos ao que nos rodeia. Nas nossas rotinas, esquecemo-nos de estar despertos para o que nos rodeia. Vivemos sem ver e vemos sem observar. E quando vivemos embrulhados nos nossos pensamentos apressados, na nossa agenda de afazeres diários por fazer que nos esquecemos de pensar e apreciar a beleza do momento. Agradeço-te balão cor-de-rosa e também te agradeço vento, por me lembrarem que é preciso estar atento, que é preciso para lá da nossa azáfama diária.

Que vergonha passar tanto sem escrever aqui. Devo estar a amadurecer em demasia. Prefiro dizer que ao invés de envelhecer estou a amadurecer talvez porque os anos passaram sem que me desse conta e de repente estão ali ao virar da esquina os cinquenta. A pouco e pouco as brancas no cabelo vão sendo mais frequentes, porém a minha mentalidade parece mais juvenil e optimista. Isto porque muito provavelmente os anos que vivi me mostraram que o pessimismo é um obstáculo a uma vida feliz.

Fiquei recentemente familiarizado com uma das premissas do estoicismo denominada “Amor Fati“ que se traduziria em grosso modo como amar o destino. É um conceito difícil de abraçar, pois implicitamente deveríamos não só aceitar e amar tudo o que nos acontece de bom e também de mau. No fundo sermos gratos por tudo o que o destino nos reservou, mesmo que isso nos tivesse num primeiro momento causado angustia e sofrimento. E isto porque é uma das formulas que os estóicos acreditam ser a base de uma vida feliz. Aceitar que o nosso ego e vontade não altera magicamente o nosso destino mas sim só o nega e cria obstáculos. Acreditar que o que sucedeu de mau na nossa existência só nos tornou mais capazes e nos fez crescer é uma noção que venho a acarinhar cada vez mais a medida que amadureço.

Todos nós, homo sapiens somos os descendentes de lutadores estóicos que suportaram todas as adversidades que se colocaram à sua frente, desde o tempo das cavernas, passando por mil fomes, guerras e pestes desde que há memória. Ao fim de contas nós neste jardim à beira-mar plantado desde os nossos bisavós sobrevivemos à implantação da republica, à primeira grande , a três ou quatro bancas-rotas, à falta de alimentos, a uma ditadura de 48 anos, a uma guerra colonial com 5 frentes no ultramar, ao isolamento internacional, a pobreza do pós-guerra, à de Abril e ao PREC, ao 25 de Novembro, às maiorias absolutas, ao FMI e a geringonça.

No fim fazem-se as contas: sobrevivemos e somos mais fortes e capazes. Tal como na nossa própria vida, todas as vicissitudes são importantes para nos enriquecerem e fazerem de nós seres com mais fibra e sabedoria. E a cada ano que passa e nos afastamos daquelas comoções e contrariedades trágicas temos uma perspectiva mais salutar, uma lição que levamos aprendida para uso . “Amor Fati” é abraçar o fado e que nos fez quem somos e que deveríamos ser gratos pelo caminho que fizemos assim como o que se está a desenlaçar para o futuro que há de vir. E que venha ele. Estamos cá para isso.

As pequenas células cinzentas necessitam exercício. Esta seria talvez uma das frases mais repetidas de uma das minhas personagens de ficção favoritas le monsieur Hercule Poirot, famoso detective privado, um belga vivendo na Londres imperial das novelas da escritora Agatha Christie. Em adolescente eu devora livros de suspense e mistério e a mestria daquela escritora deixa-me em suspenso até ao desvendar do mistério. O estranho e perspicaz belga, orgulhava-se de exercitar as pequenas células cinzentas e meticulosamente deduzir quem era o frio assassino.

Recordo-me ainda de alguns desse livros, muito embora na altura todos aqueles nomes da aristocracia britânica e toda aquela estética do anos trinta me confundisse um pouco. Mas o que mais me fascina hoje é que aquela autora, teve ao longo de cerca de quarenta anos de carreira a mestria e a capacidade de labuta para escrever mais de 80 obras policiais. Trata-se tão somente da autora mais lida em todo o e os seus livros só serão ultrapassados em número de vendas pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare. Qual seria o seu segredo? Como teriam as suas pequenas células cinzentas tanta capacidade criativa e tanto empenho em escrever? Como seria capaz de tanta fecundidade de escrita e tanto arrojo nas suas histórias envolventes?

Fico surpreendido como alguém é capaz de suster anos fio a originalidade e a solidez de um estilo de escrita , conseguindo todos os anos meter um ou dois no prelo e elaborar uma obra literária tão profícua como a lady Agatha Christie. Aquelas pequenas células cinzentas deviam ser muito especiais. E deviam suar muito.