brilhante

Acabei de ler 2666 de Roberto Bolaño. Fiquei esmagado com a prosa póstuma deste escritor, que deixou esta obra-prima inacabada, porém limpa e brilhante.

Há muito que não lia um livro tão irreverente e pojante de conteúdo, levando a literatura moderna a novos limiares. Não conseguia parar de ler este livro que consegue aliar a beleza à claustrofobia de uma cena de terror em inúmeros capítulos, sem inibições e descarregando uma corrente inesgotável de personagens únicas e inesquecíveis. Bolaño tornou-se imortal neste livro com um nome tão estranho quanto inexplicável para quem não leu mais nada deste escritor.

A como é habito cria os seus hábitos. A vida corre fluída quando se está e estável, no familiar que criamos e amamos.

Mudando de cena e visitando um noctívago que estávamos já desabituados, podemos assistir a um concerto brilhante e para o qual não compramos bilhetes e que assistimos numa sala de projecção mística, qual cena decadente do 2001 Odisseia no Espaço. E com o meu velho amigo Gin e a mais bela companhia do mundo.

Porém há sempre percalços e situações insólitas que servem de cenário colorido da paisagem permanente. Um particularmente estranho foi a minha querida pet ter decidido que era um gato para-quedista e pôs em pratica aquele radical sem estar apetrechada com o respectivo equipamento felino. O resultado apavorante de ter um gato a cair do terceiro andar só pode ser ainda mais medonho se não se dá conta do voo e se procura o bicho sem muito sucesso. Felizmente, fora o lábio rachado e patas com almofadas estouradas não houve danos de maior a não ser uma conta calada do veterinário e um susto que nos deixou incrédulos de tão inusitado que foi.

Interessante foi uma palavra fraca para descrever a surpresa com que fui brindado num jantar de aniversário de um amigo que está sempre no coração: a medalhada jantou connosco, num momento e lugar completamente improvável.
Acho que a vida não obedece a estatísticas e probabilidades…

Não sei o que me dá na gana, para passar tempos esquecidos sem atender às necessidades de escrita salutar. Talvez as excelentes leituras em que tenho mergulhado me tenham inibido de escrever dado o virtuosismo literário que me tem acompanhado em inúmeros serões e tardes de lazer de deleite.

A desenfreada apanha-me de tempos a tempos, quando me vêm parar às mãos alguns grandes mestres e raramente tive um período tão profícuo. De Henry Miller a Garcia Marquês, passando por Amado e Albert Camus.

Perante páginas tão brilhantes e audases, e também pela abrangência de estilos e tipos de narração fico suspenso no deglutir de tamanha genialidade. E bom mergular em semelhantes leituras e ouvir o discuso dos bardos.

A reabertura dos tempos de lazer foi no mínimo interessante. O facto de me ter dedicado pela segunda vez na minha ao desporto radical do campismo, e na companhia do veteraníssimo , tornaram uns dias que seriam à priori de dolce fare niente de pasmaceira numa inestimável experiência e de lazer pacato.

Tomar rumo ao sul sem chegar a latitudes pavorosas, montar o barraco e comprar a múmia que me havia esquecido de trazer fizeram-me bem, e apesar do tempo estar pavoroso para radicais, foi um quality time de cavaqueira, VTES, companheirismo, formigas e dormir no chão.

Em última análise foi importante de ares, estar longe de um volante visitar locais quase de forma aleatória sem preocupações de tempo ou , apenas me deixando relaxar com a amizade e a Nikon para saborear a passagem das horas. Nos longos diálogos as conversas intransigentes e inteligentes deambularam desde o sentido da vida, ao cortar nas casacas e a inocência perdida que reina no campo de batalha dos trintões, e como não podia deixar de ser – na história universal. Uma salada de fruta intelectual que me levou a ter sestas ou quase-sestas. Assim a espera foi brilhante e não custou tanto no início. É bom ter alguém com quem contar.

Correu tudo bem. A visita da olímpica amiga fez com que o fim-de-semana fosse especial e apesar do corre-corre. As desilusões dos antros noctívagos programados com antecedência e escolhidos a olho para dar um ar de bom cicerone mostraram-se bastante ridículas.
Felizmente a gastronomia quase estritamente vegetariana foi brilhante e o audaz da galinha Vindaloo deram um sabor especial a umas conversas muito interessantes e lúcidas.

Nada melhor que ter uma visita tão ilustre e nobre para alegrar os nossos dias com a sua simpatia, inteligência e cultura e estreitar laços de amizade além fronteiras.

Pelo meio deu para agraciara pequena L. e os seus babosos pais, no seu primeiro aniversário.
O passa ligeiro…