brilhante

A vida está repleta por altos e baixos, de momentos de excitação ou apatia, de alegria ou tristeza e também por saúde ou doença. Na verdade, essa montanha russa que chamamos viver é uma inconstante viagem de boas e más emoções que se vão sucedendo. E tudo sem que consigamos compreender a normalidade desta inconstância.

Quando adoecemos ou envelhecemos ou a quando as vidas profissionais ou amorosas se desmoronam julgamos que isso tem algo de anormal. Mas muito pelo contrário, nada de existe de mais normal.

E é nestes baixos da vida, em que parece que nos foge o chão que pisamos que podemos realmente vencer. É aí que surge a oportunidade de ter alguma sabedoria e refletir sobre o que realmente importa na vida e como é normal ganhar ou também perder.

Podemos sentir-nos perdidos e desanimados, mas é imperioso lembrar que sempre há luz no fim do túnel (seja ele qual for). A luz pode sempre surgir na mais profunda escuridão, estar ao virar da esquina da dor e do desespero.

À medida que os anos e décadas passam, temos que lembrar que esta vida é bela e cheia de surpresas. Que por muito negro que esteja o céu haverá sempre um silver lining. Não importa o quão sombrio possa parecer o momento atual nunca devemos perder a no futuro. Há luz depois.

Então, encontremos a luminosidade em nossas vidas e compartilhemos essa luz com os outros. Afinal, a verdadeira felicidade está em dar amor e esperança para aqueles que nos rodeiam, sem pedir nada em troca. A verdadeira felicidade é dar e não ter. É a gratidão. É a partilha.

Não devemos desistir de encontrar essa claridade na nossa vida. Através de relacionamentos saudáveis e de experiências enriquecedoras há a verdadeira luz. E momentos de gratidão. Afinal, a vida é uma jornada, e a “luminosidade” está sempre ao nosso alcance.

Acabei de ler 2666 de Roberto Bolaño. Fiquei esmagado com a prosa póstuma deste escritor, que deixou esta obra-prima inacabada, porém limpa e brilhante.

Há muito que não lia um livro tão irreverente e pojante de conteúdo, levando a literatura moderna a novos limiares. Não conseguia parar de ler este livro que consegue aliar a beleza à claustrofobia de uma cena de terror em inúmeros capítulos, sem inibições e descarregando uma corrente inesgotável de personagens únicas e inesquecíveis. Bolaño tornou-se imortal neste livro com um nome tão estranho quanto inexplicável para quem não leu mais nada deste escritor.

A vida como é habito cria os seus hábitos. A vida corre fluída quando se está feliz e estável, no mundo familiar que criamos e amamos.

Mudando de cena e visitando um espaço noctívago que estávamos já desabituados, podemos assistir a um concerto brilhante e para o qual não compramos bilhetes e que assistimos numa sala de projecção mística, qual cena decadente do 2001 Odisseia no Espaço. E com o meu velho amigo Gin e a mais bela companhia do mundo.

Porém há sempre percalços e situações insólitas que servem de cenário colorido da paisagem permanente. Um particularmente estranho foi a minha querida pet ter decidido que era um gato para-quedista e pôs em pratica aquele desporto radical sem estar apetrechada com o respectivo equipamento felino. O resultado apavorante de ter um gato a cair do terceiro andar só pode ser ainda mais medonho se não se dá conta do voo e se procura o bicho sem muito sucesso. Felizmente, fora o lábio rachado e patas com almofadas estouradas não houve danos de maior a não ser uma conta calada do veterinário e um susto que nos deixou incrédulos de tão inusitado que foi.

Interessante foi uma palavra fraca para descrever a surpresa com que fui brindado num jantar de aniversário de um amigo que está sempre no coração: a medalhada jantou connosco, num momento e lugar completamente improvável.
Acho que a vida não obedece a estatísticas e probabilidades…

Não sei o que me dá na gana, para passar tempos esquecidos sem atender às necessidades de escrita salutar. Talvez as excelentes leituras em que tenho mergulhado me tenham inibido de escrever dado o virtuosismo literário que me tem acompanhado em inúmeros serões e tardes de lazer de deleite.

A leitura desenfreada apanha-me de tempos a tempos, quando me vêm parar às mãos alguns grandes mestres e raramente tive um período tão profícuo. De Henry Miller a Garcia Marquês, passando por Amado e Albert Camus.

Perante páginas tão brilhantes e audases, e também pela abrangência de estilos e tipos de narração fico suspenso no deglutir mental de tamanha genialidade. E bom mergular em semelhantes leituras e ouvir o discuso dos bardos.

A reabertura dos tempos de lazer foi no mínimo interessante. O facto de me ter dedicado pela segunda vez na minha vida ao desporto radical do campismo, e na companhia do veteraníssimo mestre, tornaram uns dias que seriam à priori de dolce fare niente de pasmaceira numa inestimável experiência e tempo de lazer pacato.

Tomar rumo ao sul sem chegar a latitudes pavorosas, montar o barraco e comprar a múmia que me havia esquecido de trazer fizeram-me bem, e apesar do tempo estar pavoroso para radicais, foi um quality time de cavaqueira, VTES, companheirismo, formigas e dormir no chão.

Em última análise foi importante mudar de ares, estar longe de um volante visitar locais quase de forma aleatória sem preocupações de tempo ou espaço, apenas me deixando relaxar com a amizade e a Nikon para saborear a passagem das horas. Nos longos diálogos as conversas intransigentes e inteligentes deambularam desde o sentido da vida, ao cortar nas casacas e a inocência perdida que reina no campo de batalha dos trintões, e como não podia deixar de ser – na história universal. Uma salada de fruta intelectual que me levou a ter sestas ou quase-sestas. Assim a espera foi brilhante e não custou tanto no início. É bom ter alguém com quem contar.

Correu tudo bem. A visita da olímpica amiga fez com que o fim-de-semana fosse especial e apesar do corre-corre. As desilusões dos antros noctívagos programados com antecedência e escolhidos a olho para dar um ar de bom cicerone mostraram-se bastante ridículas.
Felizmente a gastronomia quase estritamente vegetariana foi brilhante e o risco audaz da galinha Vindaloo deram um sabor especial a umas conversas muito interessantes e lúcidas.

Nada melhor que ter uma visita tão ilustre e nobre para alegrar os nossos dias com a sua simpatia, inteligência e cultura e estreitar laços de amizade além fronteiras.

Pelo meio deu para agraciara pequena L. e os seus babosos pais, no seu primeiro aniversário.
O tempo passa ligeiro…

Eu sei que ondas revivalistas não surtem grande efeito. Nem efeito, nem boas experiências. Nem em termos musicais nem festivos é aconselhavel reviver o passado, por muito bom que esse fosse.

Tal não foi o caso de rever um muito velho e querido guru de noites musicadas e dançadas. Rei e senhor absoluto do electroclash, pioneiríssimo em Portugal desse estilo musical que tanto amei, (e julgo ainda amar), voltar a assistir a uma actuação do DJ Kitten era ao mesmo tempo uma obsessão e também um enorme receio. Temia não gostar, achar os ritmos e discos demasiado riscados, a peça demasiado previsivel.

Mais uma vez o club Gourmet salvou-me, num acto de total abnegação, o meu mano mais novo insistiu para uma noite de aposta em grande. Sempre como dois mosqueteiros, N. e eu seriamos um veteranos num Kitten na terra medieval. S. essa incrível amiga e cozinheira talentosa, deliciou-nos com um bacalhau irrepreensível acompanhado por várias botelhas de um surpreendente Quinta do Javali que fiquei extremamente fã. A companhia e camaradagem que valem 6 estrelas.

Chegados ao local de actuação na hora H, fomos presenteados como os únicos veteranos indefectíveis com uma sessão que merecia um selo de aprovação a ouro, mesmo passados todos estes anos. Um repertório totalmente novo, mas na mira do que sempre foi, um som brilhante de descontracção misturado com um delirio que faz dançar até os paralíticos. Valeu a pena ser um revivalista, pois fui agraciado com uma noite muito bem passada.

Pena ter sido curto e com a dosagem de Gin Tónico a carburar lá fomos dar os parabéns ao amigo João pela sua carreira. Em breve há mais. E o resto do noite foi muito zumbi

Se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes

são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão.

Al Berto in LIVRO DECIMO TERCEIRO

Num processo de reestruturação da matriz cerebral, a alma regenera-se lentamente. Possuir a obstinação é quase sempre a forma de seguir a raiva, o lado negro da vida. É um encurtar de caminhos, onde facilmente se cai em ilusões de grandeza, onde o individualismo cego é sentido como se fosse espiritualismo.

Regenero-me lentamente, e apago a feridas dos desgostos ilusórios e da ausência de discernimento. Amadureço nas minhas convicções, mas nunca as tenho como dogmas sagrados, mas sim como um processo de iluminação.A fé é sempre importante, mas da mesma forma, a fé que liberta e dá força, a mesma também pode cegar. Cega, trás o fanatismo acéfalo do mal, como a inquisição, o medo do demo e afins típicos das seitas religiosas, ou até das principais religiões.

Tudo isso também pode ser um caminho que nos leva à perdição, por arrasto num rebanho de crentes que estavam perdidos à espera de serem salvos pelo ”guru” mais próximo.Foi nessa a ilusão onde me vi envolvido, quebrando etapas e subindo degraus inseguros. Acreditando cegamente numa luz brilhante que não era real, mas sim uma malha de mentiras. Hoje tenho plena consciência que não é construindo baralhos de cartas espirituais, que a nossa alma pode conseguir atingir uma evolução ou melhoria.

A força e a devoção não se criam sobre alicerces frágeis. É necessário perseguir o bem e a verdade, não para nós mesmos, como para os outros, passo após passo, tombo após tombo. Só assim veremos um equilíbrio que nos apresenta alguma luz. A nossa dita salvação não reside nos gurus, nem nas crenças ancestrais, meros rituais religiosos, ou produtos prêt-a-porter new wage tipo alivio rápido das dores. Somos nós que temos que descobrir essa salvação, pacientemente, amadurecendo, degrau após degrau na viagem que se chama a Vida e Amor.
Só assim podemos começar a tentar ser felizes: buscando a verdade em nós e não caindo nas ilusões fugazes ou mentiras que desejamos agarrar para que nos salvarem. Salve-se quem puder… ou souber. Parece cruel, mas não deixa de ser uma realidade intrínseca.

Buda apontou um caminho, através da meditação, do entendimento do que nós somos e na luta contra os nossos demónios internos. Jesus apontou outro caminho, salientando a bondade social, mas também evitando os pecados. São caminhos apontados, rumando à eternidade. No cerne da questão está o equilíbrio do espírito – conseguir encontrar um ponto em que não traiamos a nós mesmos, sabendo que é a verdade nos libertará, e que ela é um trilho longo e difícil, que serpenteia ao longo de uma cordilheira que se eleva até aos céus.

Os precipícios são imensos e os montanheiros menos cautelosos nunca conseguirão atingir o cume da montanha mais alta. Não devem pular de obstáculos, sobe pena de se condenarem numa queda sem fim.

versão brasileira original

Cinderela era uma moça muito bonita, boa, inteligente e triste. Os pais tinham morrido e ela morava num castelo. A dona do castelo era uma mulher muito má que tinha duas filhas: Anastácia e Genoveva. Borralheira, sozinha, fazia todos os serviços do enorme, castelo (limpava, cozinhava, passava a roupa, arrumava) e nada recebia em troca. Seus únicos amigos eram os ratinhos, os pássaros, um cavalo e um gato.
Certo dia, o mensageiro do Rei passou pela cidade e informou que ele convidava todas as moças para um baile, onde o Príncipe ia escolher a esposa.Genoveva e Anastácia brigaram, porque ambas queriam ser a esposa do Príncipe.
– Eu também posso ir? – perguntou Cinderela.
– Se tiver um vestido bonito e depois de acabar todo o serviço! – respondeu a dona do castelo.

Cinderela correu para o quarto, chorando, porque não tinha vestidos bonitos. Os ratinhos e os passarinhos, que ouviram a conversa, fizeram um vestido para a amiga.
No dia do baile, quando a moça entrou no quarto, depois de trabalhar o dia inteiro, ficou surpresa: Ah, que vestido lindo, feito pelos meus amiguinhos! Borralheira ficou feliz, porque, agora, também poderia ir a festa. Mas, quando chegou na sala, toda bonita, as duas irmãs invejosas pularam em cima dela e rasgaram o vestido.
Chorando muito, Borralheira recolheu os trapos, pôs tudo dentro de um saco e correu para o jardim.

De repente, apareceu uma luz muito brilhante que se transformou numa linda mulher.
– Eu sou sua fada-madrinha e vim ajudar você. Vou lhe fazer um vestido lindo e você poderá ir ao baile. Mas esteja de volta antes da meia-noite, quando tudo voltará o que era.
A fada tocou a varinha de condão em Borralheira, e ela surgiu num vestido multo bonito. Uma abóbora virou ,- carruagem; os ratinhos fogosos cavalos brancos; seus tamancos de madeira, ricos sapatinhos de cristal.
– Obrigada, minha boa fada-madrinha – disse Borralheira. – Até logo!

– Até logo! – respondeu a fada. Divirta-se, mas não se esqueça: o encanto acabar¡a à meia-noite!
Cinderela foi a moça mais bonita do baile. 0 Príncipe se apaixonou logo que a viu e dançou com ela a noite inteira.
Anastácia , Genoveva e a mãe ficaram furiosas.

Quando já ia bater a meia- noite, Borralheira saiu correndo, com medo de que o encanto se desfizesse na frente de todos.
O Príncipe correu atrás dela, mas não alcançou-a. Durante a fuga, Borralheira perdeu um dos sapatinhos de cristal na escadaria do palácio.
Como a bela moça não tinha tempo para voltar, deixou o sapatinho ela mesmo. Cinderela ainda estava na rua quando tudo voltou a ser como antes. Só o sapatinho de cristal não voltou a ser o velho tamanco de madeira.
Ah pensava ela, enquanto voltava para casa como o Príncipe é bom e bonito! Pena que eu nunca mais o verei de novo! Gostaria tanto que ele me escolhesse para sua noiva…

Enquanto isso, no castelo, o Príncipe achava o outro sapatinho de cristal. Como aquela moça era bonita e graciosa! – disse ele ao Rei. Mas eu nem sei o nome dela. A única pista que tenho é este sapatinho…
0 Rei, percebendo que o filho estava apaixonado, mandou que um criado experimentasse o sapatinho de cristal em todas as moças do reino. Era impossível que houvesse mais de uma moça com aquele pezinho tão delicado.
0 mensageiro levou muito tempo para descobrir a verdadeira dona do sapatinho, mas, finalmente, achou Cinderela.
– Que beleza! – exclamou ao ver que o calçado dava direitinho no pé da moça. – Encontrei quem o Príncipe queria!
Imaginem a inveja das donas do castelo quando Borralheira se casou com o Príncipe.

Gosto de virar páginas. É sempre um marco importante das nossas vidas virar uma determinada página, dar um assunto por encerrado e iniciar um outro processo de vivência no nosso caminho rumo à (i)mortalidade.

Vejo-me a virar a página com bastante suavidade depois de sentir que nunca mais estava a terminar a leitura daquele texto, que embora belo, estava demasiado comprido. Por isso os meus dedos demoravam a pousar no canto da folha para roçar e mudar de página. Agora inicio uma nova leitura, num texto que parece ser mais fluído e interessante. Novas aventuras e sentidos atentos que serão embalados pelo desenrolar de uma nova história, numa leitura renovada.

Foi com um misto de tristeza e satisfação que recebi a notícia que Pete retornará ao seu país. Portugal foi-lhe ingrato, mas ele admite que o facto de não se ter esforçado mais para falar português quebrou as hipóteses de se integrar neste país. Isso, e a atitude e certas portuguesas típicas que gostam de manter romances e esperanças dúbias, sem interesse em concretizar o esforço de sedução… Maus tratos aparte, Pete parte e deixa saudades.

Fico com pena de não ter estado mais vezes com esse amigo e brilhante astrólogo britânico. Mas fazer-lhe-á bem fugir deste país onde “nada funciona, ninguém chega às horas, onde há muita corrupção, onde os alunos são mal educados“, onde vai sentir falta “das pessoas honestas e verdadeiramente genuínas“. Para um inglês sobreviver em Portugal é algo realmente complicado. Pete vira também a sua página, e de certeza estará mais feliz back in London.

Há dias em que a frase «Eu não me devia ter levantado hoje» tem um significado bem mais lógico do que seria de esperar. A vida é singularmente um conjunto de pequenas acções e reacções, que não conseguimos antecipar com todo o realismo.

Há quem lhe chame destino, ou antes calcule as probabilidades de um determinado evento, fazendo um matrimónio forçado entre a lógica matemática e a realidade caótica da previsibilidade do axioma causa/efeito.

Presumo que aqueles dois segundos que me deixei estar a dormir, ou os cinco segundos por ter deixado aquela senhora atravessar, poderiam por si só evitado o desastre: dois segundos antes e o cão sairia em corrida de entre os dois carros estacionados e eu travaria em segurança. Mas esses segundos extra não existiram, e só tomei consciência atónito que o bicho se tinha atirado para o meu pára-choques quando o baque surdo se deu.

Só dois segundos seriam tudo que eu desejava para evitar este singular e trágico incidente. Sinto-me culpado por ter ferido o bicho, que apesar dos meus esforços, se raspou, muito embora devesse estar bastante ferido. Nada de sangue mas o pára-choques partido exibia bastantes pelos e o inter-cooler arrebentado tornou impossível a combustão no motor. Brilhante. Além do sentimento de culpa, de não conseguir ajudar o bicho, vou também andar a penantes durante o fim-de-semana. Foram só dois segundos de azar

Fugindo ao calor escapei-me para a praia, tentando uma noite sossegada de sono na passada sexta-feira. Orfeu foi bastante antipático e presenteou-me com uma praga de mosquitos que me deixaram acordado uma boa parte da noite e madrugada. Desesperante sentir que naquele momento, eu de bom grado, prepararia uma solução final para todo o género de mosquitos sem o menor remorso.
Exausto adormeci apenas de manhã e acabei por perder umas horas de praia retemperadoras. Era dia de ir até Miguel Bombarda, encontrar-me com Ma., que já não via há muito e comprar uns CDs no sitio do costume.

Aproveitei e finalmente fui conhecer a Casa da Música. Fiquei quase que orgulhoso, com o edifício que de facto é inspirador e motivante no sentido de trazer à minha cidade alguns artistas musicais atraídos pela arquitectura. Espero que sirva de um polo cultural agregador, que tanto faz falta à cidade.

Underworld live green laser 2003

Se não estou em erro, foi algures por volta de 1996 que assisti no já desaparecido Rock’s de Gaia a um concerto quase mítico e inesquecível para quem esteve lá. Tratou-se do primeiro concerto dos Underworld em terras lusitanas e era para mim foi sem sombra de dúvida o melhor concerto que jamais tinha presenciado.
Os Underworld conseguiram algo que a maioria das bandas electrónicas jamais conseguiu fazer: tornar a sua música e estilo passíveis de serem tocadas ao vivo num concerto. Os sons inovadores e improvisos em versões adulteradas dos seu temas originais que ouvi naquela cave do outro lado do rio ainda ecoavam na minha mente. Não me cansava de repetir que tinha sido o concerto da minha vida.

Quando soube que os Underworld iam finalmente regressar a Portugal ao fim de tantos anos dei pulos de contentamento. O facto de ser em Lisboa e de ser a meio da semana não me demoveu. Queimei de bom grado dois preciosos dias de férias e de armas e bagagens rumo à grande cidade propus-me a chatear M. que por sinal também estava de férias.

Acho que estava com umas expectativas altas. Ao longo da carreira, os Underworld sofreram pequenas alterações cosméticas, mas mantiveram-se fieis a um ritmo frenético e simultaneamente rico em sonoridades e pinceladas acústicas que os catapultaram para a excelência ao longo da carreira. Um álbum ou outro menos consistente, mas como fã incondicional atento, e detentor de toda a discografia legal, e uns bons gigas de mp3 ao vivo da banda, pude sempre verificar que o grupo británico sempre foi genial a criar maxis e a fazer remakes e versões, e muito mais a
interpreta-los ao vivo do que a encher um CD. Esperava que no Coliseu dos Recreios não caíssem muito na promoção do seu último disco A Hundred Days Off, nem que focassem o Everything, everything. Mesmo depois da recente saída de Dareen Emerson, o agora duo dá mostras de todo o fulgor criativo e interpretativo, como se estivessem no auge da força.

Eu e M., que nem era muito fã dos Underworld, lá jantamos por lá nas redondezas perante uma multidão de alfacinhas que se preparava para assistir às fastidiosas e ridículas marchas populares. Para meu espanto quando chegamos ao Coliseu encontramos uma série de exilados como M., gente boa da minha cidade que também se viu obrigada a tentar a sua sorte na grande cidade.

O ar já cheirava a potência um DJ set de aquecimento e já abanava. A banda, agora um duo, fez juz ao rótulo e fama de dar concertos delirantes a que ninguém consegue resistir. Logo às primeiras vibrações numa excelente acústica, os semi-deuses revelaram-se num concerto que excedeu todas as minhas expectativas e que hoje posso dizer que foi o melhor concerto que assisti até hoje.

Abanei. Vibrei. Dancei. Pulei. Um ritmo crescente de temas reduzidos à sua essência e transmutados em brilhantes interpretações vocacionadas para um concerto como aquele. Todo o coliseu pulava rendido ao Born Slippy e Rez.
Os Underworld fizeram antes uma retrospectiva da sua carreira, sem terem as algemas da promoçãoo de um novo disco, pois já passaram um pouco a barreira da comercial que tinham caído nos dois últimos álbuns. De facto sente-se que são já uma banda para agradar aos fãs ao vivo. Por isso não há restrições, nem nada a provar pois há sensivelmente dois anos que a estrada esta sempre a rolar. Estão já divinisados, já ultrapassaram o estrelato e estão lá no outro lado.

Enquanto o meu espírito se deliciava com o som e o meu corpo se sintonizava com o ritmo, surgiu o King of Snakes em que um potente raio laser verde provou como coisas simples e até retro podem ser absolutamente geniais, num matrimónio de luz e som como muito provavelmente nunca mais vou assistir. Ficarão para sempre na retina aquelas dezenas de minutos de versão extendida.

Dois encores colossais, sendo o último após a insistência por mais de 10 minutos do público que não arredava pé, marcaram o terminus de mais de duas horas de um concerto que para a maioria dos felizados ficará como um dos melhores da sua vida. Para mim o melhor.

Questiono-me muitas vezes se não li em demasia alguns livros da época do romantismo. Este fim de semana foi como que acusado de ser um romântico. Para espanto meu, isso não me caiu nada bem, pois foi como que se eu fosse comparado a um anacronismo, ainda pior que ser machista ou comunista.

Fiquei de facto estupefacto. Nunca me tinha visto como romântico, mas todos os pequenos sinais de comportamento assim o indicam: um idealismo, uma postura gentlemen em relação ao belo sexo, uma reserva educada. Agora que penso nisso, e apesar de já me terem rotulado de lírico e sonhador (o que concordo inteiramente, para mal dos meus pecados), nunca me tinha identificado como um romântico. Pior que isso é saber que isso até me pareceu pejorativo, como se eu fosse um dinossauro excelentíssimo, um cro-magnon, uma espécie em vias de extinção.

Ser-se romântico, e encaixar nas ideias preconcebidas em torno desse conceito não deixa de ser custoso. Realmente não existe habitat possível nas relações humanas nos dias de hoje para tal tipo de comportamento tão inadaptado, não só emocionalmente como socialmente. Não me considero romântico, mas padeço desse mal estranho e em desuso de mimar as mulheres e ser um perfeito um pinga-amor démodé. Adjectivos como honesto, respeitador, atencioso, amável, prestável, educado, não têm agora grande estima no sexo feminino.

Sinto que a emancipação das mulheres ocidentais ao longo do século XX teve um efeito perturbador na sua idealização de homem: nada de cavaleiros em armaduras brilhantes, mas antes selvagens guerreiros estilo Atila.

Acredito que hoje um homem capta mais facilmente a atenção de uma fêmea humana se se comportar como um verdadeiro cafajeste. Para mim é quase algo contra natura, mas posso afiançar que as raras vezes que optei por tentar ser algo bruto, mesquinho ou maquiavélico numa relação, recebi das mulheres muita mais estima e interesse, do que se me comportasse como um dito romântico.

Como diz o ditado: “Quanto mais me bates, mais eu gosto de ti…

5 – Além da distância, um até breve

Já faz algum tempo que regressei, mas nestas coisas de viajar e saborear novos horizontes, há sempre algo que assimilamos de novo.
O reconforto da luminosidade, calor e vivências, valeu-me belos fotogramas de alta-resolução, gravados na minha memória, algo capaz de alimentar a caldeira das emoções por longos períodos de carência energética. A América do Sol vai permanecer um dos meus destinos favoritos, e vou guardar o seu carisma de terra onde o meu espirito pode chegar esvaziado e faminto e regressa sempre pleno e abundante.

O contacto com outras percepções de vida, relega toda aquela ansiedade de frustrações e sonhos futuros, tão típicas dos europeus para o seu devido lugar. Pode soar a falso, mas ambas as vezes que viajei à terra da Vera Cruz, senti-me mudado e rejuvenescido, quer em moral, quer em capacidade de encaixe face aos problemas que se colocam no nosso quotidiano. Muitas vezes sobrevalorizamos aspectos da vida que se tornam insignificantes, e menosprezamos facetas essenciais da nossa curta existência. Essa miopia é curada quando bebemos estas experiências de desprendiamento numa terra linda e brilhante. A Vida deve ser desfrutada assim que nós é oferecida. Não é para usada e consumida na totalidade para construir e perseguir apenas momentos futuros que julgamos serem melhores.
Carpe diem!

Hoje que a distância geográfica e temporal acumulam-se e fazem essa barreira injusta, entre o meu corpo e o cálido mar salgado do Cumbuco, ao sabor do vento na jangada de mestre Pedro, não sinto uma saudade piegas de retornar, apenas acalento essa sensação de paixão consumada com a Vida. Um até breve a essa grande paixão.

4 – Breve consideração sobre peregrinações

Hoje acredito cada vez mais na necessidade da nossa cultura ocidental ter alguma forma de escape. Uma das mais em voga nas últimas décadas traduz-se no chamado Turismo, no viajar para destinos longínquos onde a grande maioria dos locais que possam parecer familiares, pura e simplesmente não existem.

Talvez a nossa rotina não seja assim tão infernal, nem o nosso lugarejo seja assim tão desinteressante.
Contudo lá longe (seja lá onde for desde que seja muito longe) existe o Efeito Peregrinação, uma diaspora, onde os nossos laços e raízes são decepados temporariamente, e toda a nossa existência se pode resumir a preocupações perfeitamente mundanas, ao estilo de “onde se vai jantar hoje”, ou “amanha podíamos ir visitar aquilo”. Gostos, cheiros, odores e cores novas violam o nosso cérebro, e turbinam a mente para um estado de consciência alterado, onde o tempo não tem que ser contado ao minuto, nem existe o perigo de sermos triturados pelas máquinas centrípetas da vida nas grandes cidades. Coexistimos e tentamos sobreviver na urbe, numa sociedade de formigueiros de Q.I. elaborados, onde subsiste a ilusão que a nossa individualidade é superior às directivas comportamentais da colónia “humana”. Mas em peregrinação, a urbe está distante e a formiguinha volta a ser um ser com capacidade decisória e em total independência em relação à ditadura do formigueiro.

Mas ao lado dessa perfeita inutilidade e futilidade das férias, o efeito peregrinação dá-nos um entendimento muitas vezes não consciente de que a nossa vida poderia ser muito diferente sem grande esforço. Como se numa viagem tomássemos finalmente conhecimento de que seriamos capazes de mudar e ser algo ou alguém distinto, enfrentando com prazer e sucesso uma aventura completamente desigual, um novo desafio para o qual não estávamos preparados, mas que podemos finalizar com toda a satizfação e resultados brilhantes. Como se fossemos um actor e nos dessem um papel completamente diferente para a mão, e a peça com data de estreia para hoje a noite. O interessante é que provavelmente seria a nossa melhor interpretação de sempre, com direito a ovação de pé de um público rendido ao nosso génio.
Mudar de papel na peça da vida, ou levar a cabo um jornada que nos ilumina de certa forma, não é totalmente imperioso para que sejamos mais felizes, mas pelo menos ajuda.

Esta minha fase de cavalo de corrida exige que eu não pare, mesmo que isso signifique que a exaustão me possa ser fatal.
No fim-de-semana passado as coisas tomaram proporções de corrida a galope desalmado, com três noites seguidas. Três jantares soberbos, dois deles nos meus dois restaurantes de eleição, em companhias brilhantes e até sedutoras. N. fez a mesma rota do bacalhau.

Mas a piece de resistence foi mesmo o Kitten no Triplex, ao qual não podia resistir a faltar.

O Clube Kitten permanece inqualificável e sedutor, continuando a ser a melhor noite do Porto, apesar de já estar a dar sinais de pura decadência em termos de ambiente. Há já algumas almas menos nobres que não podem desculpa quando nos pisam ou dão algum encontrão.
Apesar disso a música continua a ser perfeita e i núcleo duro do Clube Kitten encantador, as duas únicas razões porque se atura o sentimento claustrofobico minúsculo do Triplex.

Dividido em três frentes, em três noites o meu coração matraqueia pulsações desincopadas, e galopo desenfreado, pois afinal não posso parar e a meta ainda vem longe.

A peça XXX dos Fura dels Baus mereceram todas minhas expectativas, antecipadas vários meses antes, desde o anúncio que iam presentear a minha cidade com mais uma presença.

Adepto incondicional da grande companhia catalã, acabei por convencer Ju., I., N., e a adorável loirinha a não perderem esta oportunidade única de dar ao mamarracho do coliseu algum significado.

O show XXX é um bocado diferente ao que já conhecia dos Fura. Nesta peça o palco existe, mas é apenas transposto e decomposto em camadas, ao contrario da inexistência física das outras peças que assisti. A deconstrução do teatro clássico, abalando todos os seus alicerces volta-se para outro factor, menos radical em filosofia, mas provavelmente mais fanático em temática.

Mas Fura é Fura! É manipulação, choque, inovação, espectáculo, provocação. E nisso a companhia não perdoa nem um milímetro.

Buscando o mote da Filosofia de Alcova de Sade, XXX é um espectáculo para adultos, bebendo e debitando pornografia, sempre hard core, explorando quase ao máximo conceitos de atentado ao falso pudor.

A genitália feminina e masculina é sempre um ícone presente, a nudez dos actores aparece rápida e desenfreada. A luxúria, o sadismo e o masoquismo aparecem retratados de forma simples, mostrados com toda a naturalidade e sem eufemismos.

Os textos estão perfeitos e os quatro actores dão o corpo a devassidão da peça, sem que para isso sejam transporcados em demasia. O sexo é explicito, mas afinal é sempre implícito, algo que os Fura nunca deixaram de fazer como ninguém, a manipulação das imagens e conceitos até à perfeição, numa viagem às ilusões reais do sexo ao vivo.

Em cena as imagens sucedem-se numa simbiose de vídeo deixando o palco também de ser um limite horizontal para ser também um limite vertical onde se projectam as cenas, as sombras, o outro lado semi-enevoado, os voos das personagens, o êxtase, a pornografia e a beleza.

As actrizes vivem algo de exigente, e os tabus caem por terra, em especial ao receber uma actriz de filmes porno, a ser uma dominatrix motora de toda a peça, devidamente assistida por um Sade contemporâneo.

Fica presente na retina um amargo de boca e alguns instintos primários algo mexidos, alguma parte negra da sexualidade relembrada, ou o pavor de uma abordagem pelas personagens. Mas o mais estranho e polémico do XXX é sentir que Sade é acima de tudo contemporâneo e está entre nós, na nossa cultura, erotismo, sexualidade e depravação, como se o seu livro tivesses sido escrito há uns trinta anos.

Fura sempre. Foi brilhante. Cada vez mais fã.
Quem sabe esperar mais 3 anos para que voltem novamente?