XXX


A peça XXX dos Fura dels Baus mereceram todas minhas expectativas, antecipadas vários meses antes, desde o anúncio que iam presentear a minha cidade com mais uma presença.

Adepto incondicional da grande companhia catalã, acabei por convencer Ju., I., N., e a adorável loirinha a não perderem esta oportunidade única de dar ao mamarracho do coliseu algum significado.

O show XXX é um bocado diferente ao que já conhecia dos Fura. Nesta peça o palco existe, mas é apenas transposto e decomposto em camadas, ao contrario da inexistência física das outras peças que assisti. A deconstrução do teatro clássico, abalando todos os seus alicerces volta-se para outro factor, menos radical em filosofia, mas provavelmente mais fanático em temática.

Mas Fura é Fura! É manipulação, choque, inovação, espectáculo, provocação. E nisso a companhia não perdoa nem um milímetro.

Buscando o mote da Filosofia de Alcova de Sade, XXX é um espectáculo para adultos, bebendo e debitando pornografia, sempre hard core, explorando quase ao máximo conceitos de atentado ao falso pudor.

A genitália feminina e masculina é sempre um ícone presente, a nudez dos actores aparece rápida e desenfreada. A luxúria, o sadismo e o masoquismo aparecem retratados de forma simples, mostrados com toda a naturalidade e sem eufemismos.

Os textos estão perfeitos e os quatro actores dão o corpo a devassidão da peça, sem que para isso sejam transporcados em demasia. O sexo é explicito, mas afinal é sempre implícito, algo que os Fura nunca deixaram de fazer como ninguém, a manipulação das imagens e conceitos até à perfeição, numa viagem às ilusões reais do sexo ao vivo.

Em cena as imagens sucedem-se numa simbiose de vídeo deixando o palco também de ser um limite horizontal para ser também um limite vertical onde se projectam as cenas, as sombras, o outro lado semi-enevoado, os voos das personagens, o êxtase, a pornografia e a beleza.

As actrizes vivem algo de exigente, e os tabus caem por terra, em especial ao receber uma actriz de filmes porno, a ser uma dominatrix motora de toda a peça, devidamente assistida por um Sade contemporâneo.

Fica presente na retina um amargo de boca e alguns instintos primários algo mexidos, alguma parte negra da sexualidade relembrada, ou o pavor de uma abordagem pelas personagens. Mas o mais estranho e polémico do XXX é sentir que Sade é acima de tudo contemporâneo e está entre nós, na nossa cultura, erotismo, sexualidade e depravação, como se o seu livro tivesses sido escrito há uns trinta anos.

Fura sempre. Foi brilhante. Cada vez mais fã.
Quem sabe esperar mais 3 anos para que voltem novamente?


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