Muita água já passou por baixo da ponte
Longe vai o tempo em que eu escrevia regularmente neste blogue. Talvez a vida tenha-me pegado muitas partidas, talvez apenas eu tenha envelhecido, ou talvez tenha passado tanta água debaixo da ponte que eu não sei mais como pegar no fio à meada.
Porém hoje acordei com a necessidade de recordar o sabor de escrever aqui. De sentir volátil sensação de partilhar com o mundo e ao mesmo tempo com ninguém em concreto aquilo que acho que sou e o que acho que sinto.
Faz perto de cinco anos que a minha vida deu um pulo qualitativo enorme. Encontrei uma doença que me confrontou com a minha finitude, de uma forma bem intransigente e quase esmagadora. Vi perante mim um futuro que aparentemente só prometia dor, angústia e morte. Parecia que os meus compromissos de amor com a minha mulher, meus filhos e pais teriam de ser quebrados sem que eu pudesse fazer nada para o impedir. Foram tempos que me senti impotente e mesquinho como no corredor para a morte com um diagnóstico de uma doença incurável. Estava subitamente subtraido dos planos que tinha para a minha vida.
Porém a vida é assim no seu âmago, subtil e frágil, escapa-se por entre os dedos, como um líquido. E fugazmente desaparece. Evapora-se.
Mas a mente insiste em ficar. É o que sobra quando tudo o resto cede — os planos, a ilusão de uma continuidade garantida, a certeza de que amanhã existiria por defeito. Talvez seja essa a razão última.
Há qualquer coisa de cómico em levar anos a construir uma versão de quem sou e descobrir, de repente, que ela era uma versão permanente provisória desde o início. Que todos os andaimes eram só isso : andaimes. O diagnóstico não trouxe luz — isso seria demasiado simplista e cínico. Trouxe apenas uma pergunta diferente, formulada de outra maneira.
Cinco anos depois, a pergunta ainda não tem resposta. Mas já não pesa tanto. Talvez porque entretanto eu tenha aprendido a carregá-la de forma diferente. Ou talvez simplesmente porque o corpo se habitua a quase tudo, incluindo à incerteza. Não sei distinguir as duas coisas. E já não tenho a certeza de que importa. Talvez tudo seja apenas um reflexo de como as coisas são, ou melhor de como não o são. Simples, talvez como a água que passa debaixo da ponte.