acreditar

50. Que ninguém procure o defeito nos outros; que ninguém observe as omissões e acções dos outros. Mas observemos os nossos próprios actos.


Dhammapada Tradução portuguesa de Bhikkhu Dhammiko

Que vergonha passar tanto tempo sem escrever aqui. Devo estar a amadurecer em demasia. Prefiro dizer que ao invés de envelhecer estou a amadurecer talvez porque os anos passaram sem que me desse conta e de repente estão ali ao virar da esquina os cinquenta. A pouco e pouco as brancas no cabelo vão sendo mais frequentes, porém a minha mentalidade parece mais juvenil e optimista. Isto porque muito provavelmente os anos que vivi me mostraram que o pessimismo é um obstáculo a uma vida feliz.

Fiquei recentemente familiarizado com uma das premissas do estoicismo denominada “Amor Fati“ que se traduziria em grosso modo como amar o destino. É um conceito difícil de abraçar, pois implicitamente deveríamos não só aceitar e amar tudo o que nos acontece de bom e também de mau. No fundo sermos gratos por tudo o que o destino nos reservou, mesmo que isso nos tivesse num primeiro momento causado angustia e sofrimento. E isto porque é uma das formulas que os estóicos acreditam ser a base de uma vida feliz. Aceitar que o nosso ego e vontade não altera magicamente o nosso destino mas sim só o nega e cria obstáculos. Acreditar que o que sucedeu de mau na nossa existência só nos tornou mais capazes e nos fez crescer é uma noção que venho a acarinhar cada vez mais a medida que amadureço.

Todos nós, homo sapiens somos os descendentes de lutadores estóicos que suportaram todas as adversidades que se colocaram à sua frente, desde o tempo das cavernas, passando por mil fomes, guerras e pestes desde que há memória. Ao fim de contas nós neste jardim à beira-mar plantado desde os nossos bisavós sobrevivemos à implantação da republica, à primeira grande guerra, a três ou quatro bancas-rotas, à falta de alimentos, a uma ditadura de 48 anos, a uma guerra colonial com 5 frentes no ultramar, ao isolamento internacional, a pobreza do pós-guerra, à revolução de Abril e ao PREC, ao 25 de Novembro, às maiorias absolutas, ao FMI e a geringonça.

No fim fazem-se as contas: sobrevivemos e somos mais fortes e capazes. Tal como na nossa própria vida, todas as vicissitudes são importantes para nos enriquecerem e fazerem de nós seres com mais fibra e sabedoria. E a cada ano que passa e nos afastamos daquelas comoções e contrariedades trágicas temos uma perspectiva mais salutar, uma lição que levamos aprendida para uso futuro. “Amor Fati” é abraçar o fado e sentir que nos fez quem somos e que deveríamos ser gratos pelo caminho que fizemos assim como o que se está a desenlaçar para o futuro que há de vir. E que venha ele. Estamos cá para isso.

Agora que se fazem as limpezas de Outono em casa e que a rotina estudantil dos meus pequenos entrou em velocidade de cruzeiro, é chegada a altura em que sabe bem reatar as azafamas e atividades salutares do pós-férias.

Este ano quero que algumas das boas vibrações do Verão perdurem para lá do Outono e que se estendam num novo ritmo: queria-me libertar do excesso de stress que nesta época tende-me a cobrir de preocupações. Habitualmente no fim de Setembro sou já um caffeine junkie, consumido nas horas e nos atrasos, etc… Para não naufragar neste esquema de deixar a vida fugir entre os dedos das mãos, nervoso e tenso com a correria que é a azafama diária vou tentar implementar algumas regrar às minhas células cinzentas no sentido de o que me rodeia, sem deixar que a minha mente fique presa no momento que vem a seguir.

Para conseguir este milagre, vou seguir o que a experiência (para não lhe chamar a idade) me tem ensinado ao longo dos anos que calcorreio esta Terra. Em primeiro lugar não acreditar que num momento para o outro a minha lucidez e força de vontade sobre-humana me vão tornar instantaneamente num guru imune as vicissitudes da vivência neste mundo – é antes um processo gradual em que cada dia se sobe mais um degrau. Em segundo lugar, vou evitar os acontecimentos e influências que despertam em mim o nervosismo, a inquietação e o desconforto emocional. Coisas simples como evitar noticiários de desgraças ou polémicas infrutíferas nas redes sociais, conflitos de pensamentos infrutíferos sobre visões políticas ou futeboleiras, ou ainda não ouvir músicas ou ver filmes de carácter violento. No fundo, fugir dos pequenos conflitos que assolam o nosso quotidiano e buscar um pouco mais de paz. E em terceiro e último lugar seguir o conselho de uma alma amiga e iluminada – naqueles momentos menos felizes em que o nosso lobo mau interior ameaça se soltar da sua jaula, fechar os olhos respirar fundo e imaginar aquele momento especial de relaxamento e de profunda felicidade que nos inundou a alma. Basta recordar esse sentimento por alguns segundos e os nossos demónios se desvanecem e a nossa pulsação se regra novamente.

Este ano vou trazer os bons vibes do Verão até quando o frio começar a apertar. E talvez escrever um pouco mais aqui também me ajude nesses exorcismos. A ver vamos…

  • O centro de saúde de Rio Tinto parece um cenário saído directamente da imaginação de Kafka #
  • Rio Tinto é o Burkina Faso do grande Porto. #
  • A aposta de Paulo Bento em Hélder Postiga faz-me acreditar que o meu filhote Vasco de cinco dias daria um melhor seleccionador nacional #
  • Não é azar. E não saber ganhar. É o efeito sborting. #
  • Just completed a 4.38 km run – Pós bronquite e nascimento do varão . http://t.co/1M1ipAor #RunKeeper #
  • Just completed a 0.85 km walk with @RunKeeper. Check it out! http://t.co/vmU5OU5J #RunKeeper #
  • Just posted a 1.10 km swim with @RunKeeper. Check it out! http://t.co/s9Rfvb4H #RunKeeper #
  • Esperando pela minha bailarina. #
  • Ready for the big show! #
  • Já chorei como uma Madalena ao ver a minha bailarina brilhar #

1. As Scut começaram mal e ameaçam acabar muito pior. Um Governo socialista idealizou-as como “as auto-estradas que se pagam a si próprias”. À época, muitos denunciaram a fantasia. Os socialistas, designadamente os ex-ministros João Cravinho e Jorge Coelho (nunca se esqueçam!), juravam que não: tudo estava planeado e as vozes que requeriam mais ponderação e cautela não passavam, dizia-se, de incertezas colocadas por quem não tinha imaginação para mais. Quando Guterres fugiu e nasceu o Governo de coligação PSD/CDS, fizeram-se finalmente as contas e percebeu-se a inevitabilidade das portagens como esforço de compensação para o negócio ruinoso para o Estado que os socialistas tinham engendrado.

Algum tempo depois, um outro Governo socialista chegou. Voltou a prometer a gratuitidade – muitos acreditaram e a vida das empresas e das pessoas daquelas regiões servidas pelas Scut foram-se compondo ao seu redor.

2. Depois, Sócrates fez o que mais o notabiliza: alegremente, pontapeou essa promessa eleitoral. Sem pestanejar, repetiu tudo aquilo que parte da Oposição dizia desde o início e afirmou a urgência das portagens.

Os consórcios privados cedo perceberam que o fluxo de trânsito iria diminuir após a introdução das portagens. De imediato, quiseram a renegociação da fórmula de pagamento que era baseada, precisamente, no número de viaturas que transitavam nessas vias. E, pasme-se, conseguiram todos os seus intentos – até os devem ter superado. Obedientemente, o Estado socialista renegociou o que as empresas queriam e como estas desejavam: a base da compensação às empresas (rentabilidade) passou a ser um conceito indeterminado, poeticamente denominado de “disponibilidade”. A partir desse funesto momento, o fluxo de veículos nas Scut era indiferente para os consórcios – estes, recebiam “rentabilidades” desmesuradas em qualquer situação.

3. O resultado foi desastroso. De acordo com uma auditoria preliminar do Tribunal de Contas (TC), realizada graças a uma réstia de vergonha que ainda consegue subsistir por aqueles lados e cujos resultados provisórios terão escapado para os jornais antes do tempo politicamente aprazado, os consórcios privados ficaram a ganhar (e o Estado a perder) 58 vezes mais com a renegociação do novo modelo de pagamento a pretexto da introdução das portagens. Se as notícias agora conhecidas se vierem a confirmar, a retribuição que o Estado terá de ofertar aos privados terá crescido 10 mil milhões de euros…

4. Quando as portagens surgiram, quiseram convencer-nos de que se tratava de um esforço imprescindível para ajudarmos o país a sair do buraco onde tinha sido enfiado pelos maus governos que nos têm assolado. Afinal, afundámo-nos ainda mais.

Já vi realizarem-se maus negócios mas nada que se assemelhasse a isto. Caso esta auditoria do TC seja autêntica, o desnível entre a inteligência dos privados e a gritante obtusidade dos negociadores do Governo é excessivo e suspeito: tudo indica que se trata de uma vigarice legal.

O processo das Scut revela que a incompetência deste Governo está muito para além da redenção. E constituirá um exercício de cidadania ficarmos atentos, nos próximos anos, aos destinos profissionais daqueles governantes, pretensos defensores do interesse comum, que participaram nesta marosca deplorável.

Sempre que os leitores passarem por debaixo de um dos pórticos e ouvirem o irritante sinal sonoro do identificador, quando descobrirem os débitos nas suas contas bancárias, lembrem-se de quem criou e prometeu aquelas estradas “sem custos para o utilizador”. Evoquem as promessas mil vezes repetidas pelos mesmos que as quebraram. Recordem os argumentos da necessidade do país nesta hora de aflição que nos foram impingidos quando nos fizeram pagar aquilo que tinham jurado ser gratuito. E recapitulem os números: o dinheiro dos nossos impostos, após as portagens, vai ser imolado 58 vezes mais dolorosamente do que antes.

Pois, como dizia o sempre presente ex-ministro Jorge Coelho, hoje do outro lado da ditosa barricada, “há pouca memória na política portuguesa”…

Opinião de Carlos Abreu Amorim no JN

Aproxima-se o Verão e com ele novas etapas. O mundo muda e a vida acontece quando tentamos racionalizar um pouco o nosso meio , talvez por isso exista um permanência um lag , uma dessincronização, entre a nossa capacidade de interiorizar os acontecimentos importantes da nossa vida e actuar de acordo quando ocorrem novos eventos. Por isso considero que cada vez mais a vida tem que ser instintiva o mais possível e não planeada segundo valores pré definidos.

Talvez por eu ser uma estranha simbiose entre um romântico encartado e um filosofo de trazer por casa, gosto de aliar conceitos inverosímeis – como encontrar alguma lógica nos comportamentos humanos e simultaneamente defender a paixão de Viver. Porém quando me dou conta, construo uma manta de retalhos de concepções e hipóteses de fundamentos. Isso leva-me a acreditar que muitas ideias que vulgarmente considerava imutáveis são de facto castelos de cartas e que segundo um filosofo ancestral – Sócrates – nos devemos colocar como eternos aprendizes.

A mutabilidade da vida parece ser a única constante da existência. E isso demora a ser apreendido. E este Verão quero aprender muitas coisas sobre a vida, nas aulas do bem lindo rebento.

O teu sorriso, tão parecido como o da tua mãe, alimenta o meu coração e enobrece-me a alma. Quando sorris com a tua inocência resplandecente, fazes-me acreditar na grandiosidade da vida e de como o amor se sobrepõe a tudo. Obrigada.

Quando a revi ao longe, não quis acreditar que todos aqueles sentimentos de puro deslumbre estavam reactivados. A sua beleza singela despertava de novo em mim aquela atracção intimidadora que eu sabia que em pouco segundos me iam tornar numa amiba embasbacada. Respirei fundo e segui em seu encontro. Não era mais tempo de não olhar olhos nos olhos uma mulher bonita.

Sonhos Urbanos

A passagem de ano acarreta a esperança frenética das resoluções para o novo ano. Planos e mais planos, expectativas e até por vezes alguns desajeitados desejos de mudanças radicais.

Enquanto se engolem as passas despejam-se atabalhoadamente votos de um futuro melhor, para os outros e para nos sem aprofundar muito o seu significado, e quando na pressa se engolem as últimas passas para acompanhar as doze badaladas damos conta que ruminar as uvas secas ao Sol não é assim tão agradável.

O que é agradável, isso sim é a predisposição de efectuar mudanças ao nosso life style a acalentar que é exequível, como camaleões, mudar os nossos traços e destinos. Talvez as resoluções de ano novo sejam apenas e só isso: acreditar que há algo melhor o nosso alcance.

Por bem ou por mal alguns volte-de-face já me caíram do céu este ano. A continuar assim este circulo ao redor do Sol promete ser agitado. Não será propriamente como na música pouco conhecida Death or Glory, em que se ainda temos um crash and burn, mas há muito em jogo. Felizmente há esperança de ouvir uma vez ou outra um Hallelujah como epílogo.

Já não é recente a minha aventura marítima. Contudo não posso esquecer a manhã em que me iniciei no que eu supunha ser um entedioso processo de dar banho à minhoca.
Com um pequeno grupo, urbano e relativamente bem armado, fui ao encontro de uma nova experiência. Fazer algo de novo ou relativamente pouco seguro, faz-me sentir vivo e pulsante, por isso quando surgiu a hipótese de ir a uma pescaria em mar-alto num barco de pesca artesanal não podia sequer pensar recusar. O convite caiu-me no colo durante um fim-de-semana bastante animado, através do inspector P. E da sua trupe.

A medo lá acordei cedo e na companhia do Inspector D. lá me fiz a estrada meio a contra-gosto. A ideia de navegar numa casca-de-noz motorizada não me parecia muito convincente. Pior ainda, as minhas ideias pré-concebidas acerca da arte pescatória, ou dos pescadores de taínhas, não auguravam nada de compensador.

Perante a luz de um Sol a despontar, chegamos ao local indicado, onde conheci duas pessoas exemplares, dois pescadores minhotos de enesima geração, dois sujeitos com a honestidade e simplicidade acolhedora. Logo fomos embarcados ainda na praia e rebocados por um tractor para o mar.

Mar límpido e calmo, envolto em bruma matinal, logo fomos surpreendidos pelo aroma do mar salgado, onde um motor mais próprio para lanchas rápidas cortou num branco de espuma e fervilhar ondulante um rasto que se perdia numa nevoa distante. Era uma sensação única, sentir o leve pinchar do barco à medida que as milhas se sucediam, e nos afastávamos para um outro universo, só conhecido dos lobos do mar e dos mestres da faina marítima.

Sem receios de enjoos, pois o mar pareceria um imenso lago senti a brisa marítima, num momentos emocionantes em que bandos de gaivotas e umas aves marinhas negras, ao estilo de fragatas levantavam voo assustadas pela nossa passagem. Senti a liberdade de uma aventura no mar, como que uma chamada ancestral (quem sabe familiar), de um retorno à imensidão do oceano. Quando paramos senti a quietude desértica do mar, num silêncio que nos permite ouvir as ondas e o saltitar frenético dos cardumes de sardinhas. Senti um aperto e uma exaltação que se sente quando nos parecemos vivos, apreciando algo que é único.

Pesquei pela primeira vez na minha vida. Retirei do mar uma cavala, com alguma angustia por matar o bicho, mas foi tão fácil puchar pela linha que não queria acreditar. De facto eles picavam tudo, até os anzóis. O inspector D. fartou-se de dar à cana e acabou por ser um recordista.

Para finalizar a manhã, um surpresa. Um bater na água ao longe repetia-se. Passou ao largo um grupo de golfinhos fazendo os seus saltos majestosos fora de água, numa frenética caça a um cardume. Foi entusiasmante de observar mesmo ao longe um grupo de golfinhos predando organizados em grupo, como fazem quando não estão enclausurados em tanques pelo homem.

Quando de regresso a terra firme, felizes pela faina fomos ainda agraciados por um jantar pago pelo nosso mestre-guia que não quiz nada em compensação por um dia de trabalho perdido. Assim é o acolhimentos das gentes generosas da Apúlia. Dá que pensar.

E depois seguiu-se a bela patuscada com o pescaria, mas isso foi outra história.

Há alturas na nossa vida que tudo se tinge de um cinza pólido. É uma melancolia cortante que nos desencoraja, na moral de perseguir a nossa felicidade. Esquecemo-nos que o arco-íris apenas espera por um pouco de luz para poder abrilhantar e rasgar um céu cinzento na sua magnificência colorida.

Muitas vezes me deixei vencer pelas barreiras que à minha volta deixei crescer e que tomei como muros intransponíveis. Culpabilizei os entraves ao invês de me esforçar por os ultrapassar. Deixei-me prostrar, refugiei-me nos meus handycaps escondi-me numa carapaça de indiferença, por medo de não ser capaz de sonhar mais alto e arranjar forças para saltar e voar para o outro lado da prisão que tenho dentro de meus receios.

Quando fui um anjo sem asas, provei a mim próprio que nada nos proíbe de tentar, ou de conseguir aquilo a que nos propomos. A camisa-de-forças apenas existe em nós, na nossa insatisfação com nós mesmos e na nossa incapacidade em acreditarmos em nos mesmos. É isso que nos derrota.

Vou perseguir até encontrar um arco-íris que sempre me acompanhou e lutar até debelar o cinzento que me encobre e diminui.

1. O jogador

O ano terminou num enorme alarido, tal como seria suposto numa época de mudança.
Os quilómetros sucediam-se, as diferenças, as interrogações.
O Equinócio de Inverno marcou de forma muito intensa a minha forma de encarar a vida. Descobri que consegui fazer-me infeliz e a quem amo, devido ao facto de complicar o que não é complicado. Não havia necessidade de criar uma divisão na minha alma, nem aspirar a que as dificuldades se desvanecessem como se fossem uma névoa passageira.

Silenciei-me, deixei de escrever talvez por ter demasiado , o que escrever e por temer também a introspecção que o meu diário é capaz de gerar ao fixar para o futuro um presente em que a vida e os acontecimentos giram como num pião desenfreado que gira sem cessar.

corrida de cavalos
Baralhei-me na tontura giratória, da ansiedade, medo, perfumadas pelo mais profundo amar. Um amor de verdade que não queria acreditar e que me arrebatara de forma irreversível. Não mais poderia ser o mesmo homem face ao tumulto e pulsar que uma paixão suprema e profunda pode acarretar. O amor modifica-nos a essência, rouba-nos parte da alma rebelde, para nos dar a virtude do nosso intimo estar completo. Como se a voz de uma mulher pudesse também ecoar na nossa alma, partilhando comigo uma possibilidade de futuro.

Abriram-se novas portas, vislumbram-se novos rumos, mas os cavalos cansaram-se de verdade, e acobardaram-se. Os cavalos de corrida agora espumavam sem parar e sentiam no lombo a aposta. Agora a corrida era a valer, jogava-se a vida num telefonema, num SMS, e como numa roleta a bola saltava caprichosamente entre o preto e o vermelho, na mais alta parada em jogo…
parada alta
Quando o pneu estourou na auto-estrada quando seguia a 160, o meu primeiro pensamento foi para ela, e por segundos percebi naquele frio imenso de segunda de manhã que as soluções não são fáceis nem os riscos são pequenos, para quem quer viver e amar. Segui um caminho mais fraco de tentar correr menos riscos, colocar menos fichas. Jogar só no par? Só no Vermelho? E se sai impar? E se sai preto?

E a bola saltava caprichosamente entre os vários números, após ter rodado lentamente na roleta, a ponto de fazer suar de impaciência o jogador.

Quase chorei quando na Vox começou a passar uma música que me dava sempre um estímulo de maratonista na minha adolescência.
Sol a dar, desperto e a ouvir “Fai un sol de carallo” dos galegos Os resentidos, numa alegre combinação entre a gaita de foles festiva tão enebriante, corretamente assimilada por um eletro muito 80´s. Só me apetecia dançar cheguei mesmo a acreditar que a Vox me dedicava aqueles minutos de supresa e alegria expontânea.

As coincidências comovem-me. Por isso deixei de acreditar na possibilidade natural de coincidências, em explicar com o auxilio da lógica e da matemática as questões que seriam do âmbito da teoria das probabilidades.

Não vale a pena mergulhar no mundo da estatística para compreender aquilo que não é passível de ser explicado per si. Claro que poderia acontecer, mas o facto é que aconteceu naquele momento, naquela exacta ocasião e não noutra, revelando um impacto diferente, alterando a nossa vida. Não será isso antes um sinal, um encaminhamento para um destino, para um desencadear de acontecimentos que necessitamos agarrar, por nossa opção ou então fechar os olhos e apenas achar o quanto foi estranho.

É como sentir o pêndulo vindo na nossa direcção, sentindo o tiquetaquear do relógio imenso, pressentindo as badaladas estridentes da mudança da hora. Podemos apenas esquecer que o tempo nos chama, e que os ponteiros das horas e minutos apenas tomarão posições diferentes ou podemos optar por começar uma nova hora.

O Sr. G. tirou um mês de férias para visitar a irmã que não via há 24 anos e que vivia no Brasil. Queria surpreende-la voando até seu país sem avisar, tendo comprado o bilhete para dali uns dias, após um par de dias de férias. A sua irmã teve a mesma ideia, e por um dia, apenas um dia de diferença, após 24 anos teriam voado em direcções diferentes desencontrando-se.

O tempo de nada serve para diferenciar positiva ou negativamente o que seria, ou o que deverá ser. Apenas lhe pode dar um significado maior e mais urgente. Hoje sei isso e mais que nunca não acredito em meras coincidências.

A fatalidade nada fatal de sentir que um Destino mais forte me arrebatou para um patamar de luminosidade interna, deixa-me arrebatado, pensando que afinal talvez, tudo esteja escrito, que tudo tivesse um sentido que não nos cabe a nós perceber.

Mesmo quando nada parece estar no seu devido lugar, num amplo caos sem significados, até um bater de asas de uma borboleta, pode desencadear todas as metamorfoses e condicionar um caos que afinal se desmonta num emaranhado de traçados intencionais muito precisos.

Como se eu fosse levado para um sétimo céu abraçado a um anjo que me transporta de amplas asas, transbordando amor, sinto-me leve, quase incrédulo, como se tratasse de um sonho do qual não queremos acordar, rumo à luz. Afinal o Caos tinha a causalidade que escapava a nossa cegueira. Ou talvez a causalidade seja tão complexa que nós assusta pensar que exista uma razão, ou uma lógica por detrás dela, prefirindo acreditar num Caos anárquico.

Sentir que paira sobre mim uma benção muito rara, como que se todo o puzzle existencial se resolvesse quando se encontra aquela peça que faltava, ou que teimava em não encaixar naquele enigma. Por fim as cortinas abrem-se um pouco e deixam antever muitos mistérios, muitas formas escondidas, muitas vontades veladas, que agora à luz podemos olhar e tentar perceber.

Peaches & Kitten @celorico

Num volte de face de última hora, tudo se conjugou para que a dupla maravilha, eu e N. tratássemos de atender à chamada de mais um Kitten. Para mais-valia iríamos até um Portugal profundo para uns quantos concertos interessantes.

O festival CTB Dance sobe a égide da melhor cerveja do mundo era um destino crucial, mas revelou-se algo perturbadormente provinciano. Sem apelo nem agravo logo à chegada trataram-nos como vacas encaminhando-nos para um sector onde nos colocaram umas pulseiras com anilhas numa espécie de curral. Será que as organizações destes eventos classificam o seu publico como gado?
Creio que sim. A única tenda que me intereesava era a eletro-clash e supresa das supresas: era a mais pequena!

Rapidamente penetramos na mufla atraves de uma porta giratória pois os Ladytron já actuavam. Algo bizarro, apesar da banda ser bastante profissional aquilo era uma barulheira insuportável. Rapidamente apercebi-me que afinal não seria a banda, mas não podia acreditar que um dito festival, com budget principesco andasse a meter no dito evento colunas arrebentadas e técnicos de som rascas que só sabem afinar os baixos para o DJ XL Garcia. Foi muito sofrível. Quando acabaram apenas houve um encore tímido, e era notória a frustração dos Ladytron.

A seguir seria uma tal Peaches e decidimos ver o que se passava ao lado. A única porta giratória, demorou a ser ultrapassada na enchente e tremi só de pensar o que representava aquilo se houvesse azar. Só um Cró-Magnon seria capaz de aprovar aquilo para recinto de concertos.
Ao lado as tendas gigantescas estavam ainda obviamente às moscas, mas notava-se o mesmo efeito: o som era bastante mau.

De volta à nossa tenda para o tal concerto da Peaches. Colossal, frenético, animalesco, a mais perfeita simbiose entre e eletro e o punk, na força da Natureza encarnada numa mulher. A canadense Gonzales, que segundo algumas fontes é uma ex-prostituta, possui o público numa performance que tornaria Marilyn Manson, um palhaço para entreter meninos do coro de 9 anos.
Vestido-se tão rapidamente como se despia, saltando para o público e pedido comida, ao mesmo tempo que cantava algumas das mas emblemáticas canções eletro clash. Fiquei fã incondicional daquela artista tão exótica quanto excêntrica que fazia uso da sua sexualidade exuberante sem contudo chegar a um ponto de hard core. Um imaginário soft core (de mau gosto apenas), mas absolutamente genial. Pena é que pelo meio a Peaches tenha partido os suportes das agulhas, quando se atirou e se sentou na mesa, uma vez que os cretinos dos técnicos tinham já colocado os pratos do Kitten ali à mão de semear. Foi o ponto alto da história.

Depois o DJ Kitten aka João Vieira lá apareceu, agora com a simbologia Kellogs special K num fundo da Paramount Pictures. Depois de 20 minutos de cabos para cá e para lá, os trogloditas dos técnicos lá conseguiram que uma das colunas desse algo de jeito enquanto a outra apenas dava uns estalozitos. Ouviu-se e dançou-se o que se pode, mas era algo triste pensar que um festival com tanta nota tenha equipamento de som de terceira e uns jeitosos como técnicos. Voltei cedo, pois a distância ainda era grande e o som estava deplorável.

Pelo menos ficou o aviso:
Dia 20 de Setembro temos Club Kitten no Sá da Bandeira, e segundo fontes credíveis, Kitten vai-se fazer acompanhar por mulheres de arromba (banda, modelos???) .
Não vou faltar!

Nos dias que correm é difícil ter ideias.
A nossa sociedade apenas promove uma crítica não construtiva como única forma de pensamento próprio.

É como se toda a minha geração fosse constituída por críticos de cinema algo estereotipados que apenas conhecem os filmes que ganharam os Óscares nos últimos 20 anos.
A cultura geral está baseada na TV e nos Shops, onde se discutem e criticam pessoas e locais antes de debater ideias e/ou aspirações. É o “eu” supérfluo e raramente o “nós” comunidade. Mas não sou muito diferente em última análise: – também eu sou consumista.

Moi memme que falo assim, gosto – quer queira, quer não – de consumir a máquina artificial de sonhos que nos espetaram pelo cérebro dentro, desde tenra infância através da TV. Esquecer aquilo que nos foi incutido desde o berço é como desprogramar a mente.

Basta-me um pouco de pensamento próprio. – Já sou feliz assim! Não vou ser mais feliz ou realizado com um apartamento classe média, um carro classe média, uma mulher classe média, um televisor classe média, amigos classe média, férias classe média, roupas classe média, um DVD classe média, livros classe média… enfim uma vida classe média que no fundo é uma ideia que a publicidade – essa religião da iconografia consumista nos ensinou e nos preparou para a acreditar que seria aquilo que queríamos ter para sermos felizes.

Fomos ensinados a ser medianos-classe média …

Mas hoje já não acredito nisso.

Os últimos quinze dias de…

Sonhos e Reencontros– (sexta parte e última parte)

Já assumindo uma rotina, sem contudo perder o mau habito de me deitar tarde, continuo num novo quotidiano menos fantasioso. As cinco horas que durmo diariamente não são suficientes, mas mesmo assim sonho, mas não sonho acordado.

Os nossos sonhos são importantes, dão alento, mas também podem ser perigosos pois afastam o sonhador da realidade, confundindo-o e baralhando as suas prioridades. Acho que não conheço alguém que nunca tenha sido possuído pelos seus próprios sonhos em alguma altura da sua vida, caindo nas malhas das suas próprias ilusões.
Sou um sonhador de facto e não escondo isso. Sonhar e acreditar é algo diferente da ilusão, quando os sonhos tomam conta de nós. Sonhar e acreditar é fé e esperança, ao passo que a ilusão é uma mera mentira, mas que não é muito diferente do sonho: existe só uma fronteira muito estreita entre essa realidade e fantasia. Entre o que queremos atingir ou desejamos Ter e que tenhamos possibilidades de lá chegar, e aquilo que achávamos ser a nossa meta, mas que apenas serve de miragem uma vez que é impossível de ser alcançado.

E os peixes não são muito brilhantes a fugir a essa armadilha. No passado deixei-me consumir por ilusões vezes sem conta. Felizmente estamos sempre a crescer e a experiência é boa conselheira.

Fiquei feliz por finalmente rever a malta amiga. Em casa da maninha tivemos um repasto delicioso que só pecou por ter as tripas frias. Claro que me esperava uma leve gozação por causa da Iguaria, mas era suposto ser assim, que se há-de fazer… (nota:nunca esquecer de usar iniciais! Nunca se sabe quem pode vir a ler isto!. Foi com alguma ternura que estive no meio dos compinchas, se bem que sentisse que havia um time gap correspondente ao tempo de ausência que esmorece sempre as coisas.

Combinamos um jantar Sábado, que acabou no Martinho. Não foi uma escolha muito feliz da minha parte, nem sempre as experiências se podem repetir com exactidão. Sereno jantar e fomos até um cafezito-bar. Depois e após desistências fomos até ao 3plex. Caramba que música! 80s ao seu melhor. Muito cheio e acabamos por vir cedo. G. esteve lá depois quando aqueceu o dance floor. É uma história de desencontros…

Os últimos quinze dias de…

Jingle balls e outros actos– (terceira parte)

Creio que fui atingido de bastante preguiça no que toca a actualizar o meu weblog nas últimas semanas mas aqui continua um pequeno esforço para repor o diário de um meliante, e isto se a memória não me falhar…

Com o fim dos bits e dígitos, abracei peremptoriamente o retorno à velha e talvez única economia. Das 9 às 19 como sempre deveria ter sido… e com o picar do ponto mesmo ali ao lado?

Nos dias que antecederem as exéquias natalícias fui um dos 200.000 portugas que acorreu com ânsia ao muito antecipado Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, logo na primeira semana, numa noite de frio intenso na companhia de M. , J. e A. que curtia umas feriazitas.
O filme é soberbo, muito para além de que seria possível prever, numa das mais complexas e difíceis adaptações, que só um génio louco como Peter Jackson, que tanto estimo depois de ter realizado o FANTÁStico Braindead, seria capaz de aceitar o desafio. Bom, só faltou chorar por Dezembro de 2002 e 2003 para a continuação das outras duas partes da obra de Tolkian.

Após o filme fomos correr as capelinhas, mas qual o nosso espanto de que a tradição já não é o que era?Estava quase tudo fechado naquela noite gélida. Um Labirinto sem Minotauro foi a decisão?

As inevitáveis prendas da festa do consumo foi escolhidas a dedo à última da hora como não podia deixar de ser, ou não fosse eu um tipo que guarda tudo para os derradeiros momentos. Fiquei feliz pelo meu mano me ter vindo visitar directamente das madeiras e visitei a quase família que tanto preso. Telefonemas e SMS para a malta. E depois veio o bacalhau e aquelas coisas ruins que não consigo resistir.

Foi um Natal bastante feliz

Mas aos Reis pesei-me e não queria acreditar.