Agosto 2003

Estou a reaprender um hábito perdido. Comprei uma máquina fotográfica digital, para compensar o extravio da minha máquina compacta no Aeroporto de Madrid em Abril. O artificio de captar um momento, um sorriso, uma pequena visão ou promenor do espaço físico tem para mim um intenso fascínio.

A fotográfica imortaliza um momento, uma sensação ou uma emoção visual que não se pode transmitir por palavras devido à sua perfeição. As palavras e as frases são imperfeitas para descreverem conceitos ou sensações tão elevados ou circunstanciais que se perde a essência em rodeios linguísticos na tentativa de alcançar o que não é alcançável. Por isso, e apesar de ter sido sempre um fotografo de meia-tigela, tive sempre o gosto de disparar aquela captação do eterno.

Eu nunca gostei dos meus retratos fotográficos. Não sou daquelas criaturas fotogénicas que sabem embelezar-se perante o momento que vai ficar suspenso no tempo graças a uma fotografia. Fico sempre com um ar artificial em que não me revejo, como se a minha essência não tenha tradução visual, ou a minha alma tenha uma irreverente repulsa por ser roubada pelo fotógrafo. Desde pequeno que fujo às fotos como o demónio da cruz, só consentindo tal coisa quando me é impossível dizer “não”.

Espero em breve ser capaz de me adaptar à teoria que envolve a fotografia sem filme, com um manual que nunca mais acaba da Nikon Coolpix 4300, para conseguir captar algumas imagens decentes e guarda-las não só na retina na mente, mas também na memória do computador e no papel.

Apesar de todas as mudanças e metamorfoses que me tenho obrigado, algo não consigo alterar: a minha incapacidade de descanso propriamente dito. Ultimamente só paro quando os meus ossos já não se movem nas articulações ferrugenta e os músculos estão tão tensos que tremem.

Não sei se este meu ardor é permanente, mas o desgaste é preocupante. Mesmo durante férias sou incapaz de dormir mais de umas seis horitas, só passando esse valor quando tenho vários dias acumulados sem esse valor mínimo. Apesar de cansado, exausto mentalmente a minha mente fervilha, mesmo que desatenta. Estou permanentemente a Leste.

Não é um stress crónico, muito pelo contrário é um estado de vigília, do prazer de existir consciente, mesmo que as barreiras mentais e físicas já se tenham quebrado. Dou por mim só a adormecer apenas quando a hora tardia não me garante nenhum descanso susbtancial e já estou tonto de cansasso.
Acumulando todas essas horas infindáveis, de desgaste emocional e profissional, carrego às costas milhares de horas que deveria ter dormido. Tenho sono e estou cansado. Mas a vida tem pavio curto e por isso há a velha máxima:

descansarás quando estiveres morto.

Tinha decidido já há algum tempo ir a um festival de Verão e o de Paredes de Coura pareceu-me o mais apelativo. O problema que se colocava era o facto do dia mais interessante era a terça-feira à noite, algo terrivelmente incompatível para quem tem o seu ganha-pão de picar ponto.

Fiquei indeciso um par de semanas, mas finalmente decidi-me a ir. A medo tirei à última da hora um dia de férias graças a um bom relacionamento com o patrão. Eu e N. já havíamos sonhado um par de vezes com esse devaneio, proporcionou-se a ida com S. e um agradável Lisboeta que infelizmente não podia estar sujeito a muitos decibéis por motivos crónicos. Feitos à estrada voamos rumo ao norte, comigo o volante. Após um jantar simpático, eis nos a cair no recinto que eu não conhecia.

Chegamos tarde e P.J. Harvey fez com que apaixonasse ainda mais pela sua música. Inenterruptamente as suas músicas desprendiam-se superiores na actuação ao vivo impressionantemente supeiores a qualquer gravação com pós-produções. A verdadeira diva! Depois Placebo foi também bastante bom, embora só brilhassem verdadeiramente no final, em especial com o tema derradeiro e apoteótico “Were´s my Mind” muito fiel ao original dos Pixies.

O dia de descanso que se seguiu foi demasiadamente breve e fugidio, estendido na praia, e assediado pela presença da afável amiga colorida de outros tempos. Já não há cores, e é sempre bom rever amigos, mesmo que assediado em correntes simultâneas. Estive também com B. e Inspector P. Gostava de saber a que entidade divina devo agradecer por ter amizades duradouras que apesar de longos interregnos forçados se revitalizam tão fortes.

Ooooooh – stop

With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse
But there’s nothing in it
And you’ll ask yourself

Where is my mind
Where is my mind
Where is my mind
Way out in the water
See it swimmin’

I was swimmin’ in the Carribean
Animals were hiding behind the rock
Except the little fish
But they told me, he swears
Tryin’ to talk to me to me to me

Where is my mind
Where is my mind
Where is my mind
Way out in the water
See it swimmin’ ?

With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse
If there’s nothing in it
And you’ll ask yourself

Where is my mind
Where is my mind
Where is my mind
Ooooh
With your feet in the air and your head on the ground
Ooooh
Try this trick and spin it, yeah
Ooooh
Ooooh

Where is my mind – SURFER ROSA – Pixies

Um micro-dia de férias para recuperar do Paredes de Coura, polvilhado a praia, ida ao banco e ao barbeiro.
E agora sem Net.